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Silêncio, Falação e Curiosidade – Martin Heidegger

Gossip (“The news” / Die Neuigkeiten), Jakob Emanuel Gaisser

Gossip (“The news” / Die Neuigkeiten), Jakob Emanuel Gaisser (German Academic Painter, 1825-1899), Oil on panel, 75 x 61 cm, Private Collection

Quem silencia na fala da convivência pode “dar a entender” com maior propriedade, isto significa, pode elaborar a compreensão por oposição àquele que não perde a palavra. […] Quem nunca diz nada também não pode silenciar num dado momento. Silenciar em sentido próprio só é possível numa fala autêntica. Para poder silenciar, a presença deve ter algo a dizer, isto é, deve dispor de uma abertura própria e rica de si mesma. Pois só então o estar em silêncio se revela e, assim, abafa a “falação”. Como modo de fala, o estar em silêncio articula tão originariamente a compreensibilidade da presença que dele provém o verdadeiro poder escutar e a convivência transparente.

[…] dado que a fala perdeu ou jamais alcançou a referência ontológica primária ao referencial da fala, ela nunca se comunica no modo de uma apropriação originária deste sobre o que se fala, contentando-se com repetir e passar adiante a fala. O falado na falação arrasta consigo círculos cada vez mais amplos, assumindo um caráter autoritário. As coisas são assim como são porque é assim que delas (impessoalmente) se fala. Repetindo e passando adiante a fala potencia-se a falta de solidez. Nisto se constitui a falação. A falação não se restringe à repetição oral da fala, mas expande-se no que escreve enquanto “escrivinhação”. Aqui, a repetição da fala não se funda tanto no ouvir dizer. Ela se alimenta do que se lê.

[…] A falação é a possibilidade de compreender tudo sem se ter apropriado previamente da coisa. […] A falação que qualquer um pode sorver sofregamente não apenas dispensa a tarefa de um compreender autêntico, como também elabora uma compreensibilidade indiferente da qual nada é excluído. […]

A curiosidade liberada, porém, ocupa-se em ver, não para compreender o que vê, ou seja, para chegar a ele num ser, mas apenas para ver. Ela busca apenas o novo a fim de, por ela renovada, correr para uma outra novidade. Esse acurar em ver não trata de apreender e nem de ser e estar na verdade através do saber, mas sim das possibilidades de abandonar-se ao mundo. Por isso, a curiosidade caracteriza-se, especificamente, por uma impermanência junto ao que está mais próximo. Por isso também não busca [a quietude] de uma permanência contemplativa e sim a excitação e inquietação mediante o sempre novo e as mudanças do que vem ao encontro. Em sua impermanência, a curiosidade se ocupa da possibilidade contínua de dispersão. […]

A falação também rege os caminhos da curiosidade. É ela que diz o que se deve ter lido e visto. Esse estar em toda parte e em parte alguma da curiosidade entrega-se à responsabilidade da falação. […] A curiosidade, que nada perde, e a falação, que tudo compreende, dão à presença, que assim existe, a garantia de “uma vida cheia de vida”, pretensamente autêntica. […]

Em sua ambiguidade, a falação e a curiosidade cuidam para que aquilo que se criou autenticamente novo já chegue envelhecido quando se torna público. […] Essa ambiguidade oferece à curiosidade o que ela busca e confere à falação a aparência de que nela tudo se decide.

(Martin Heidegger, 1889-1976, filósofo alemão, em Ser e Tempo, sua magnum opus publicada em 1927. 10a edição. Petrópolis, RJ: Vozes; Bragança Paulista, SP: Editora Universitária São Francisco, 2015, pp. 227-228, 232-233, 236-237, 239. Na referida tradução, “a quietude”, aqui inserida entre colchetes, foi vertida por “o ócio”.)

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