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"Vitória, Jano, Chronos e Gaia" – Giulio Romano

Victory, Janus, Chronos, and Gaea, 1532-34, Giulio Romano

Victory, Janus, Chronos, and Gaea, 1532-34, Giulio Romano (Also known as Giulio Pippi, Italian Mannerist Painter, ca.1499-1546), Pen, brown ink, black wash over black chalk, 37.4 x 31.7 cm (14.72 x 12.48 in.), The J. Paul Getty Museum, Los Angeles, CA, USA. Large size here.

No fim deste ano de 2016, fiquei pensando nos sentimentos que, nessa época do ano, geralmente tomam conta das pessoas em nosso país. Logo me veio à mente o exemplar maneirista de Giulio Romano, no qual estão retratados quatro personagens mitológicos.

Os cristãos, desde a Patrística, assumiram a necessária atitude crítica aos deuses mitológicos dos gregos e romanos, mas conservaram a postura de examinar a sua mitologia tanto para fins históricos, quanto para fins ilustrativos de determinadas realidades, compreendendo que, em alguns aspectos, pode se extrair aprendizagem dos personagens mitológicos. Tomando como referência a atitude do apóstolo Paulo em Atenas, cristãos têm condenado o culto idólatra pagão, mas valem-se eventualmente de elementos internos da referida mitologia, desde os clássicos Homero e Hesíodo, bem como do teatro de Sófocles, para fins didáticos, marcamente com propósito ilustrativos, ou mesmo em conteúdo fictício, filosofia, poesia e retórica. Análises da mitologia dos antigos gregos e romanos têm servido para uma melhor compreensão da cultura ocidental, marcadamente judaico-cristã e greco-romana. Assim, de posse deste legado ético cristão, e também do valor da análise de uma obra de arte por si mesma, coloquei-me diante da composição de “Giulio Pippi”, na qual ele reúne quatro personagens: Vitória, Jano, Chronos e Gaia

DETAIL: Victory, Janus, Chronos, and Gaea, 1532-34, Giulio Romano

* Vitória – Os romanos faziam dela uma poderosa divindade. Geralmente retratada com asas, trazendo na mão uma coroa de louros e, na outra, uma palma. Algumas vezes está montada num globo. Nas antigas imagens cunhadas em moedas e em obras arquitetônicas, a imagem era sempre vista numa carruagem. Um exemplo é a imagem sobre o portão de Brandenburg em Berlim, Alemanha. Quando os antigos queriam designar uma vitória naval, representavam-na de pé na proa de um navio. O culto à Vitória era considerado fundamental naquela antiga sociedade. Diversos templos foram erguidos para homenageá-la e um grande culto subsistiu por centenas de anos. A adoração era muito comum entre os generais romanos, que a agradeciam pela vitória nas guerras. Ela era geralmente associada à deusa grega Nice. Observe que no trabalho de Giulio Romano ela é representada no plano mais elevado (acima das divindades associadas à temporalidade), alada e com uma coroa à mão.

DETAIL: Victory, Janus, Chronos, and Gaea, 1532-34, Giulio Romano

* Jano – Foi o deus romano que deu origem ao nome do mês de Janeiro em nosso calendário. Segundo a mitologia, foi dotado de uma rara prudência que tornava o passado e o futuro sempre presentes a seus olhos, o que foi expresso representando-o com dois rostos voltados em sentidos contrários. Era tido como o porteiro celestial, e suas duas faces representavam os términos e os começos, o passado e o futuro. Era o responsável por abrir as portas para o ano que se iniciava; é bom lembrar que toda e qualquer porta se volta para dois lados diferentes. Por isso Jano era conhecido como “deus das Portas”. É representado tendo uma chave em uma das mãos, na outra uma vara, para assinalar que é o guardião das portas (januae) e que preside os caminhos. Suas estátuas muitas vezes marcam com a mão direita o número trezentos e, com a esquerda, o número sessenta e cinco, para exprimir a medida do ano. Também podia ser referido como o deus das indecisões, pois na mitologia uma cabeça falava de uma coisa e a outra cabeça falava de outra coisa completamente diferente. Observe que no trabalho de Giulio Romano Jano é representado como uma figura incógnita, com a chave recolhida junto ao peito, e com uma face jovem e outra idosa.

DETAIL: Victory, Janus, Chronos, and Gaea, 1532-34, Giulio Romano

* Chronos – Na mitologia grega era a personificação do tempo. Os gregos antigos tinham duas palavras para o tempo: chronos e kairós – que, aliás, são encontradas nos originais gregos do Novo Testamento. Enquanto chronos refere-se ao tempo cronológico, ou sequencial, que pode ser medido, kairós refere-se a um momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece, e tem o sentido de oportunidade, de ocasião apropriada. Chronos é retratado em forma de um homem idoso de longos cabelos e barba brancos, embora permanecesse a maior parte do tempo em forma de uma força para além do alcance e do poder dos deuses mais jovens. Uma das representações mais bizarras de Chronos é a de um homem que devora o seu próprio filho. Esta representação deve-se ao fato de os antigos gregos tomarem Chronos como o criador do tempo, e uma vez que é impossível fugir ao tempo, todos seriam mais cedo ou mais tarde vencidos (devorados) por ele. Os romanos chamaram-lhe Saturno, a divindade celeste mais distante, considerada como sendo o sétimo dos sete objetos divinos visíveis a olho nu. Geralmente era representado segurando uma foice. Em muitos monumentos é representado com um véu, sem dúvida porque os tempos são obscuros e cobertos por um véu impenetrável. Observe que, no trabalho de Romano, Chronos é representado da forma tradicional, e traz também em uma das mãos uma serpente. Trata-se da mitológica Uroborus, que está eternamente a engolir o próprio rabo. Para os gregos, representava a perpétua e cíclica renovação da vida, o ciclo da vida. Representava tudo o que há entre o início e o fim. O que está entre o passado e o futuro, o nascimento e a morte, a criação e a destruição, o tudo e o nada… É o caminho que nunca termina. Os antigos gregos não possuíam uma compreensão linear do tempo, mas o concebiam como algo cíclico, naquilo que se convenciona denominar “eterno retorno”.

DETAIL: Victory, Janus, Chronos, and Gaea, 1532-34, Giulio Romano

* Gaia (ou Géia) – Era geralmente desginada como “Mãe Terra”, o elemento primordial e latente de uma potencialidade geradora quase absurda, a mãe de todos os seres. Segundo Hesíodo, em sua cosmogonia poética, no princípio surge o Caos, do qual nasce a Terra. Gaia seria a mãe dos bens e dos males, das virtudes e dos vícios. Era por vezes confundida com a Natureza. Sua natureza fazia parte de todos os elementos e, quando os homens morriam, sua “venerável mãe” sepultava-os e guardava-os em seu seio. Por vezes a Terra era representada por uma figura de mulher sentada num rochedo. Os modernos alegorizaram-na com os traços de uma venerável matrona, sentada num globo. Era geralmente retratada como uma figura feminina sofrida, pois muitas vezes gemeu com dores atrozes em momentos de parto de seus filhos; várias vezes precisou se revoltar e lançou mão de todas as suas armas para destronar Zeus; e, não raramente, foi gravemente entristecida com a destruição dos seus filhos. No trabalho de Giulio Romano, Gaia é retratada no plano inferior, assentada, vulnerável, e com um olhar caído que lhe transmite um aspecto de desalento, reforçado pela postura da mão que apóia a cabeça reclinada.

Enfim, estas quatro figuras reunidas na composição de Romano parecem sintetizar bem os sentidos e sentimentos que geralmente permeiam este contexto de fim de um ano e início de um outro. Neste momento de duas faces, que se voltam para o passado e o futuro, os homens situam-se criticamente diante da pervasiva, inevitável e ceifante força ao tempo. Os representantes da espécie adâmica, formados da sofrida terra, que um dia os aguarda, prosseguem impulsionados pelos sonhos, propósitos e ideais que cultivam, lutando por superar as imposições da temporalidade e de sua própria mortalidade. No Cristianismo, o sentido de tudo isso não se dispersa em quatro personagens míticos; o cristianismo oferece para tais conceitos a sua interpretação singular, sintetizando essas ideias na soberania do único Deus, e as reunindo e tensionando na cruz de Jesus Cristo. É nesse ato que se proclama o grito de vitória, com a eternidade invadindo o tempo e redimindo-o, infundindo aos homens esperança para além do túmulo. Na ressurreição de Cristo, a morte “é tragada na vitória”, e o corpo adâmico, sob o jugo da corruptibilidade, “reveste-se de incorruptibilidade”. E toda a criação, que “a um só tempo, geme e suporta angústias até agora”, tendo sido “sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou”, é alimentada com a esperança de que “será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus”.

Não obstante, neste momento em que dezembro finda e janeiro se aproxima, e fazemos votos de vitórias no tempo por vir, há sabedoria, sim, em ter olhos para o passado e para o futuro, atentar para a inexorável força que nos acomete no tempo, e compreender que a Criação geme e suporta angústias. E particulamente o planeta que nos serve de morada, e que nos foi dado “lavrar e cuidar”, embora forte e evidenciando enorme poder de superação, defronta-se-nos com o seu olhar caído e a cabeça reclinada. E a despeito do que pensavam os antigos gregos, não testemunhará para sempre “eternos regressos”.

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