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Edwards e a “Melancolia” – George Marsden

As citações abaixo foram extraídas do livro A Breve Vida de Jonathan Edwards, recentemente publicado em português pela Editora Fiel, e originalmente publicado em inglês em 2008. O autor, George M. Marsden (Ph.D), é historiador, professor e escritor prolífico, e laureado com o renomado prêmio literário Brancroft Prize concedido pela Universidade de Colúmbia. Marsden é professor emérito da Universidade Notre Dame, nos EUA, autor de várias obras de referência nas áreas de história da religião, cultura, igreja e evangelicalismo norte-americanos.

UMA CARACTERÍSTICA PESSOAL 

Uma coisa era fazer uma lista meticulosa e impressionante de resoluções, outra coisa era cumpri-la. Sabemos isto do diário de Jonathan, no qual ele relatou seus esforços quase regularmente durante um ano ou dois. George MarsdenEmbora ele tenha anotado os auges espirituais que lembrou posteriormente, seu diário também registra muitos dias de desânimo, “declínio” e tempos prolongados de incapacidade de focalizar-se nas coisas espirituais. Às vezes, ele ficava distraído e desconcertado por sua incapacidade de controlar totalmente suas paixões, embora fosse bem cuidadoso em referência a essas coisas. Suas mudanças emocionais durante um tempo de intensidade espiritual específico sugerem um padrão para toda a vida. Posteriormente, Edwards descreveu a si mesmo como alguém, às vezes, inclinado à “melancolia”, algo parecido com o que chamaríamos de uma forma branda de depressão. Mais tarde na vida, às vezes, ele se sentia tão fraco, que era quase incapaz de encarar outra pessoa socialmente. Ele superava essas dificuldades por meio de disciplinas estritas: manter suas rotinas de oração e estudo devocional das Escrituras e seguir suas resoluções contra o desperdício de qualquer tempo. Edwards se esforçava para vencer seus acessos de melancolia. (pp. 45-46. Itálicos meus)

Ainda que Edwards tivesse esperanças elevadas quanto ao futuro distante e uma boa explicação para reveses recentes, ele deve ter ficado desanimado com o declínio espiritual em Northampton. Fisicamente, Edwards estava longe de ser robusto. Obtemos um vislumbre disso em 1739, quando esteve em Boston para dar uma palestra pública e atender a um convite gentil de seu antigo mentor, Timothy Cutler, o ex-reitor de Yale que se tornara anglicano. Cutler relatou que Edwards estava “muito magro e debilitado em sua saúde; e tenho dúvida de que ele chegue à idade de 40 anos”. Cutler atribuiu a condição de Edwards ao estudo excessivo. De fato, sua aparência alarmante podia estar relacionada a uma dieta excessivamente rígida. Edwards experimentava frequentemente regimes austeros, que ele acreditava ter o poder de melhorar sua saúde e disposição. Além disso, sua condição poderia estar relacionada à recorrência de “melancolia” acompanhada de fraqueza física. O empenho do pastorado em Northampton ao qual Edwards dedicara tanto de suas energias nos dez anos passados tinha, sem dúvida, feito o seu estrago. (pp. 91-92. Itálicos meus)

O CASO DO “TIO HAWLEY”

No primeiro domingo de junho de 1735, o avivamento teve uma virada chocante – uma virada que forçou Edwards a retomar sua narrativa recém-terminada e acrescentar um triste pós-escrito. Na manhã daquele domingo, um dos principais cidadãos da cidade, Joseph Hawley, num ato de desespero, cortou a garganta e morreu. Hawley, que era dono de uma loja na cidade, era casado com uma das filhas mais novas de Solomon Stoddard, uma irmã da mãe de Edwards.

Edwards ficou devastado com o suicídio do “tio Hawley”. E o explicou, caracteristicamente, em dois níveis: o psicológico e o espiritual. Hawley era inclinado a profunda melancolia, um mal que operava em sua família. O médico legista “o julgou delirante” na ocasião de sua morte. Edwards aconselhara Hawley durante o avivamento e reconhecera o desespero de seu tio em sua incapacidade de achar sinais suficientes da graça. Apesar disso, Edwards também acreditava que Deus frequentemente usava o desespero para levar pecadores ao verdadeiro reconhecimento de sua necessidade de depender de Deus somente. Portanto, ainda que Edwards julgasse Hawley como alguém incapaz de ser guiado pela mera razão, continuou a pregar energicamente que aqueles que não recebessem a graça seriam condenados à punição eterna. Acima de tudo, quando Hawley tirou a própria vida, Edwards interpretou isso como um episódio de uma luta espiritual cósmica. “Satanás parecia estar ainda mais solto” e “furioso de maneira terrível” para destruir o avivamento. Como poderia ser esperado quando havia uma poderosa obra de Deus, Satanás (que Edwards, fiel à herança cristã, considerava uma personagem real) revidaria furiosamente.

O suicídio do tio Hawley diminuiu a força do avivamento. De fato, quando a notícia da morte terrível de Hawley se propagou pela região onde muitos avivamentos estavam em andamento, também se propagou algo como uma mania de suicídio. De acordo com Edwards, “multidões”, incluindo muitas pessoas piedosas que não sofriam de nenhuma melancolia, foram tomadas por uma tentação repentina, como se alguém lhes dissesse: “Corte a sua garganta, agora é uma boa oportunidade: agora, AGORA”. Muitos resistiram, mas uns poucos sucumbiram. A mania serviu para anular o contágio espiritual dos avivamentos. (pp. 78-79. Itálicos meus. A abordagem poimênica de Edwards no episódio de Joseph Hawley, bem como de vários outros que experimentaram situações parecidas, expressa a sua noção de responsabilidade teorefente em contextos de evidentes comprometimentos psíquicos, ou de “transtornos mentais”, segundo a conceituação nosológica atual.)

Jonathan Edwards; A Life é a obra de referência de Marsden acerca de Edwards, publicada pela Universidade de Yale em 2003. Neste volumoso livro de 615 páginas o leitor pode entrar em contato com o contexto mais amplo das citações acima. Por esta biografia extensa e bem documentada Marsden foi laureado com o prêmio Prize, referido no início. A obra foi amplamente acolhida por críticos como a mais acadêmica biografia de Jonathan Edwards, qualificada como “magisterial” pelo Wall Street Journal e como “magnificente” no Daily Telegraph. Foi ainda finalista na edição de 2003 do National Book Critics Circle Award.

Referência Bibliográfica: MARSDEN, George. A Breve Vida de Jonathan Edwards. São Paulo: Editora Fiel, 2015, 211p. Leia também: Edwards e a Melancolia de Brainerd e Causas da Melancolia – C. H. Spurgeon.

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