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“As belezas procedem daquela Beleza” – Santo Agostinho

The Sculptor Jean Carries in his Atelier (Portrait de Carriès dans son atelier), 1885-1886

The Sculptor Jean Carries in his Atelier (Portrait de Carriès dans son atelier), 1885-1886, Louise Catherine Breslau, (born Maria Luise Katharina Breslau, German-born Swiss Painter, 1856-1927), oil on canvas, 165 x 139 cm, Petit Palais (Musée des Beaux-Arts de la Ville de Paris), Paris, France

Os olhos amam a beleza e a variedade das formas, o brilho e a amenidade das cores. Oxalá que tais atrativos não me acorrentassem a alma! Oxalá que ela fosse possuída por aquele Deus que criou estas coisas tão belas! O meu bem é Ele, e não as criaturas que todos os dias me importunam acordado, que por vezes ficam todas em silêncio.

Que multidão inumerável de encantos não acrescentaram os homens às seduções da vista, com a variedade das artes, com as indústrias de vestidos, calçados, vasos, com outros fabricos desta espécie, com pinturas e esculturas variadas, com que ultrapassam o uso necessário moderado e a piedosa representação dos objetos! No exterior correm atrás das suas obras. No interior esquecem Aquele que os criou e destroem o que por meio d’Ele fizeram!

Eu, ó meu Deus e minha glória, até daqui tiro razões para Vos cantar um hino, oferecendo um sacrifício de louvor ao meu Sacrificador, porque as belezas que passam da alma para as mãos do artista procedem daquela Beleza que está acima das nossas almas e pela qual a minha alma suspira de dia e de noite.

Mas os artistas e amadores destas belezas externas tiram desta suma beleza apenas o critério para as apreciarem. Só não aprendem a regra para as usar bem! Contudo, esta também lá está. Porém, não a veem, porque, do contrário, não iriam tão longe, mas reservariam para Vós toda a sua força, e não a dissipariam em fatigantes delícias.

Eu mesmo, apesar de expor e compreender claramente esta doutrina, também me deixo prender por estas belezas; mas Vós, ó Senhor, libertais-me! Libertais-me, “porque a vossa misericórdia está perante os meus olhos”. Caio miseravelmente, e Vós levantais-me misericordiosamente, umas vezes sem sofrimento, porque resvalei suavemente, outras, com dor, por ter caído desamparado no chão!

(Santo Agostinho. In: Confissões. Livro X, excertos do capítulo 34. Tradução de J. Oliveira Santos, S.J., e A. Ambrósio de Pina, S.J.. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996. Confira também: “Tu és a própria Beleza!”; Breve Introdução à Estética Agostiniana, na Revista Teologia Brasileira)

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