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O Índio e a Escrita

An Old Scholar, Salomon Koninck

An Old Scholar, Salomon Koninck (Dutch Baroque Era Painter, 1609-1656), Oil on Canvas, 102 x 144 cm, The Hermitage, St. Petersburg, Russia. Large size here.

Era uma vez um índio que trabalhava para um português. Um dia, o fazendeiro pediu para o índio levar cento e cinquenta laranjas para um outro fazendeiro. O índio foi, contente, levar. No meio do caminho, sentiu sede e chupou duas laranjas. Certo de que ninguém tinha visto, foi embora e entregou as laranjas junto com a carta. O fazendeiro a leu e disse para o índio: “Diga para seu patrão que ele errou na conta. Aqui só tem cento e quarenta e oito laranjas”. O índio ficou aflito e falou para o fazendeiro que ele as tinha chupado, mas gostaria de saber quem lhe havia contado, pois ele estava certo de que ninguém vira. O fazendeiro, sorrindo, lhe apontou a carta. O índio saiu de lá intrigado: como um papel era capaz de tal proeza? E se preparou para a próxima vez. De outra feita, o português pediu que levasse aquelas laranjas junto com outra carta. Estava escrito que eram duzentas laranjas. O índio saiu para a entrega, parou no meio do caminho e, antes de chupar duas laranjas, sentou em cima da carta para que esta não visse. Qual não foi sua surpresa quando o outro fazendeiro lhe afirmou estarem faltando duas laranjas. Dessa vez o índio ficou sabendo do significado da escrita. Por isso, quando a gente escreve, a gente já pode se ausentar.

(Extraído de José Vilson dos Anjos. In: A alma brasileira. São Paulo: Editora Saraiva, 1994, p. 106)

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