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A cerimônia de formatura do professor

The school exam (Das Schulexamen), 1862, Albert Anker

The school exam (Das Schulexamen), 1862, Albert Anker (Swiss Painter, 1831-1910),  Oil on canvas, 103 x 175 cm, Kunstmuseum, Bern, Switzerland

Alguém disse: “Se você não gosta de sua turma, não vá à formatura”. Entretanto, quando se é o professor, e a colação de grau é de uma turma que você lecionou por um bom tempo, e da qual muito gostava, participar da formatura é, geralmente, uma experiência bastante agradável.

A sensação de que mais fortemente fui tomado foi aquela de que o tempo está passando. Sabe como é? A gente olha para as faces dos alunos e percebe que mudaram, amadureceram, aprenderam… Uns mais do que outros. Aqueles alunos que saem já não são exatamente os mesmos que chegaram à sua sala no primeiro dia de aula.

Diz-se que esta atual geração de jovens “é a primeira que tem algo a ensinar aos mais velhos”. Quem disse isso estava se referindo ao fato de que esta geração tem crescido na era digital. Mas ainda assim são jovens. E é preciso amadurecer. Amadurecer requer tempo e vivência, necessariamente. Certa vez inquiriram a um educador: “Se você pudesse oferecer um único conselho aos jovens, qual escolheria?” Ele refletiu um pouco e disse em tom imperativo: “Jovens, envelhecei!”

A inquietação, característica da juventude, pode tomar rumos diversos. “A juventude não é conservadora nem progressista por índole, porém é uma potencialidade pronta para qualquer oportunidade”, afirma o sociólogo alemão Karl Mannheim. Ao me colocar diante dos alunos, na cerimônia de colação de grau, é encorajador perceber que alguns estão se tornando melhores.

Perceba, porém, que eu disse que “a sensação de que mais fortemente fui tomado foi aquela de que o tempo está passando”. Ela não diz respeito apenas aos alunos. Diz respeito a mim também. E essa é uma sensação bem mista, no meu caso, pois é ao mesmo tempo recompensadora e melancólica.

O psicanalista alemão Erik Erikson (1902-1994) modificou e ampliou a teoria freudiana, enfatizando a influência da sociedade no desenvolvimento da personalidade. Erikson foi também o pioneiro ao assumir a perspectiva do ciclo de vida. Enquanto Sigmund Freud enfatizava que as primeiras experiências na infância moldavam permanentemente a personalidade, Erikson afirmava que o desenvolvimento do ego se estende por toda vida. A teoria psicossocial de Erikson parece contar com alguma medida de acerto.  Cada estágio da vida envolve aquilo que ele chamou de “crise” na personalidade (depois preferiu “tendências conflitantes ou concorrentes”). Tais “problemas”, que emergem segundo um cronograma maturacional, devem ser satisfatoriamente resolvidos para o bom desenvolvimento da personalidade.

Participar de uma formatura, como professor de uma classe jovem, conduz você a perceber que também está em algum tipo de fluxo. Olha-se para trás; olha-se para frente; e, olha-se para dentro. Então você percebe que, igualmente, já não é mais o mesmo. Entende, portanto, quando eu disse que há um sentimento misto, ao mesmo tempo recompensador e melancólico? Se para o jovem aluno a formatura é um ritual de passagem, em alguma medida também não deixa de ser para o mestre. Estamos todos passando… Foi então que, no meu caso, depois de olhar para aquelas três direções, olhei também para cima.

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