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Lar: Centro de Significado e Fundamento da Identidade

The Return of the Prodigal Son, c. 1669, Rembrandt Van Rijn

The Return of the Prodigal Son, c. 1669, Rembrandt Van Rijn (Dutch Baroque Era Painter and Engraver, 1606-1669), Oil on canvas, 103 1/8 x 81 inches (262 x 206 cm), The Hermitage, St Petersburg, Russia. Large size here. 

Blaise Pascal, em seus Pensamentos, escreve que “toda a infelicidade do mundo depende do fato de ninguém querer ficar na própria casa”. Isto me fez lembrar do clássico livro O Mágico de Oz, do escritor norte-americano L. Frank Baum. Na também clássica versão musical para o cinema, dirigida por Victor Fleming e protagonizada por Judy Garland, o lar da menina Dorothy Gale no Kansas é retratado em tonalidade sépia, enquanto a fantástica Terra de Oz recebeu o vívido colorido do Technicolor. Quem nunca ouviu “Over The Rainbow”?  “Muito além, sobre o arco-íris, há um lugar, onde o céu sempre azul nos faz sonhar, onde a gente consegue os sonhos realizar”.

O que significa exatamente a tão repetida expressão “sentir-se em casa”? O que exatamente é um “lar”? Recentemente, em duas conversas, este foi o nosso tema, e enquanto conversávamos eu me lembrei de uma cena de um outro filme. Em Sonata de Outono, dirigido por Ingmar Bergman, a personagem Charlotte Andergast, interpretada por Ingrid Bergman, é uma pianista, artista de renome internacional, que passou a vida viajando, distante das duas filhas. Os anos já lhe pesam, e ela, novamente em um trem e distanciando-se das filhas, diz: “Eu me sinto tão deslocada… Tenho tanta saudade de casa! Mas quando chego em casa, vejo que eu sinto saudade de alguma outra coisa.” Esta frase, magistralmente construída pelo dramaturgo e cineasta sueco, parece-me ainda mais significativa em nossa língua portuguesa, onde a palavra “saudade” tem um sentido muito próprio e especial.

Não. Lar não é a casa. Pode incluí-la (e talvez deva incluí-la), porém é muito mais. Isto então me transportou à minha classe de licenciatura em Geografia. O geógrafo canadense Edward Relph, em seu conhecido livro Place and Placelessness, escreve que um senso de lugar implica em um autêntico construir-lugar. Para Relph, a associação entre a existência e a identidade pessoal está amarrada ao senso de lugar e à sua constituição. Ele escreve: “Lar é o fundamento da nossa identidade como indivíduos e como membros de uma comunidade, a morada do ser. Lar não é apenas a casa que você utiliza para viver, não é algo que pode estar em algum lugar, ou que pode ser trocado, mas um insubstituível centro de significado.” Em seu cognitivismo, Relph identifica um lar como a morada do ser (“the dwelling-place of being”) e um centro insubstituível de significância (“an irreplaceable centre of significance”).

Enquanto pensava no conceito de Relph sobre construir-lugar, me lembrei que ao findar o Sermão do Monte Jesus Cristo disse que o alicerce é que faz a diferença. No Brasil nós temos ouvido com frequência sobre construções que desmoronam. Em alguns lugares o mar está retomando espaços. Eu morei no norte do Estado do Rio, próximo do pontal do Rio Paraíba, onde o mar retomou (e, segundo sei, vem retomando) muitos quarteirões de casas e edificações. No mencionado sermão de Cristo, temos ali duas boas construções. Dois homens aparentemente cuidadosos na edificação do prédio, de sua casa. Ambos com muito trabalho; ambos com muito suor. A diferença, entretanto, estava naquilo que não se via, estava nos alicerces, pois se diz que um deles “cavou, abriu bem fundo, e pôs os alicerces sobre a rocha”. Um detalhe muito importante nas metáforas de Cristo é que as tempestades sobrevieram às duas casas.

Isto logo diz para nós que há pessoas que estão edificando, mas sem sólido alicerce. O resultado: casas que desmoronam! Como você está edificando? Sobre o que está edificando? Que projeto de vida você está seguindo? Não podemos nos iludir com a aparência das construções. Artistas e personalidades famosas, empresários e homens bem sucedidos no campo financeiro, desportistas, políticos e homens poderosos, cientistas e intelectuais, grandes acadêmicos, ou mesmo “pessoas comuns” estão engajadas na construção do seu projeto de vida. A diferença, entretanto, está nos alicerces.

F. W. Robertson, um clérigo inglês do século dezenove, disse que “lar é o único lugar em todo o mundo onde os corações estão seguros uns dos outros. É o local da confiança. É o lugar onde tiramos a máscara de vigilância, frieza e suspeição que o mundo nos obriga a usar em autodefesa, e, com corações plenos e confiantes, abrimos sem reservas as comunicações.” Não se iluda, portanto. Sem esta abertura, confiança e autenticidade, você ainda está muito longe de casa. Lar é a sua morada. A sua identidade pessoal estará amarrada a este senso de lugar, à sua constituição deste lugar. Lar é o seu lugar, o seu centro de significado.

Benjamin Button foi criado num lar assistencial de idosos. Esta foi a sua casa, da qual ele se afastou em uma longa viagem. Quando Button retornou, ele disse: “É engraçado estar de volta em casa. A mesma aparência, o mesmo cheiro, a mesma sensação… Você se dá conta de que o que mudou foi você.” O poeta português, Fernando Pessoa, citando Carlyle, captou bem o sentido disto: “Qualquer estrada, até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo. Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos buscar.”

Dorothy Gale conheceu Oz, um mundo fantástico, povoado por vários povos e dominado por bruxas más a Leste e a Oeste, onde também havia um leão covarde, um espantalho falante e muito mais. Ela descobriu que o “Grande Feiticeiro de Oz” era, na realidade, um velho artista de circo, que tinha sido um mágico ilusionista, e que fora levado num balão desgovernado para Oz. Ali chegando, para proteger-se das bruxas, fingia ser um poderoso feiticeiro e criava, mediante truques engenhosos, o mito de que era verdadeiramente um bruxo. Chega então o momento em que Dorothy Gale já não cabe mais naquele lugar. É quando ela repete em refrão: “There’s no place like home”.

Lar, então, é traduzido pelo seu significado. Numa viagem que fizemos a uma grande cidade, vivemos a patética situação (que sempre recriminamos veementemente em outros) de perder nossa filha mais velha, ainda com cinco anos, dentro de um hipermercado. Assim que a encontramos (e felizmente a reencontramos!), ela, em lágrimas, manifestou o forte desejo de voltar para casa. E nós estávamos distantes mais de mil quilômetros de nossa casa. Não é preciso muito esforço para compreender que ela teve saudades do significado que a casa tinha para si: segurança, proteção, acolhimento, familiaridade e identidade. Ela estava em trânsito e perdida, e queria de volta o seu mundo significante. Esta mesma hermenêutica me foi transmitida por um amigo motorista de táxi que, depois de um assalto em que foi agredido, teve um grande desejo de voltar para casa. De fato, a primeira coisa que fez depois que foi deixado pelos criminosos foi telefonar para casa.

Lar é o melhor lugar do mundo quando retornamos de uma viagem. Ali estão coisas boas e preciosas! Compreendemos então o porquê daqueles judeus, ao retornarem do cativeiro babilônico, dizerem que estavam “como quem sonha”, e que sua boca se “encheu de riso e a língua de canções”. O pai do pródigo, na conhecida parábola de Cristo, sintetizou tudo isto e ainda mais, quando disse ao filho mais velho acerca do mais moço: “Era preciso que festejássemos e nos alegrássemos, pois este teu irmão estava morto e tornou a viver; ele estava perdido e foi reencontrado!”.

“Não há lugar como nosso Lar”. O nosso lugar, o nosso centro de significado, o fundamento da nossa identidade. Haveria algum outro “lugar” no mundo em que alguém pode sentir-se mais em casa?

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