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O “Nacionalismo” Religioso – André Biéler

Portrait of Jean Calvin, 1858, Ary Scheffer

Portrait of Jean Calvin, 1858, Ary Scheffer (Dutch-born French Academic Painter, 1795-1858), oil on canvas, Musée de la Vie Romantique, Paris, France

Ensina-nos a história que cada vez que uma porção da Igreja toma a sério, de novo, o ensino da Palavra de Deus e o aplica de forma concreta à vida pública e privada, tornando-se, dessarte, o que direito é chamar-se uma Igreja confessante, entra ela em choque com esta espécie de gente religiosa para quem uma ideologia política leva a palma sobre a fé autêntica e que exige da Igreja inteira submissão. Não é raro que esta ideologia seja uma forma de “nacionalismo”.

Ora, absoluta incompatibilidade há entre esta alienação política da religião e a liberdade da Igreja restaurada pela Divina Palavra. A Igreja Cristã não pode, sem renegar-se a si própria e desagregar-se, reconhecer uma outra autoridade última senão a da Palavra de Deus que dá testemunho a seu cabeça único: Jesus Cristo.

O “nacionalismo” religioso, que reaparece na história sob todas as espécies imagináveis de formas e de nomes, representa, destarte, na realidade, uma das mais graves e das mais perniciosas forças espirituais que a Igreja tem a combater. É ele um poder de desagregação que não vem do exterior, como é o materialismo ou o ateísmo, por exemplo, mas, muito pelo contrário, brota bem do interior; mais ainda, é extremamente ambíguo e, por vezes, pode perfeitamente mascarar a fiel expressão da fé. Acontece, com efeito, que o nacionalismo se confunde, momentaneamente, com o patriotismo cristão autêntico. Representa para a Igreja, portanto, uma permanente ameaça, tanto mais perigosa quanto exige ela não pouco de discernimento para pô-lo a descoberto e não pouco de coragem para combatê-lo.

Verdade é que, em confronto com perigos externos, este nacionalismo religioso é por vezes superficialmente proveitoso à Igreja. […] O amor do Evangelho e da liberdade espiritual é para eles mais caro que o amor da pátria – por maior e real que seja este – entram necessariamente em desacordo com os nacionalistas religiosos, para quem a ordem de valores é inversa. […] Verdadeiro patriotismo, aquele que, em vez de fundar-se nos interesses particulares ou de grupos como o nacionalismo, repousa na defesa das liberdades humanas essenciais; é o patriotismo que o Evangelho engendra. […] O nacionalismo tenta servir-se da religião, mas, longe está de tolerar a contradição da Igreja; esforça-se por todos os meios por fazer calar as vozes que se lhe opõem e em fechar a boca aos pregadores insubmissos.

(André Biéler, 1914-2006. O pensamento econômico e social de Calvino. Trad. Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, pp. 158-162. Tradução de La pensée économique et sociale de Calvin. Genève: Georg, coll. « Publications de la Faculté des sciences économiques et sociales de l’Université de Genève vol. 13 », 1959, 562p.)

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