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Filme: Jezebel (William Wyler)

(Atenção: spoiler)

Jezebel  é um filme norte-americano de 1938, produzido e dirigido por William Wyler. Estrelando Bette Davis, Henry Fonda, Donald Crisp e George Brent. O roteiro baseou-se numa peça de Owen Davis. Trata-se de um drama ambientado na cidade de Nova Orleans no século XIX, Bette Davis (Jezebel, 1938)na época em que a região era dominada pela aristocracia rural sulista algodoeira, e assolada por surtos de febre amarela.

Nos Estados Unidos, na década de 1850, o Sul e o Norte pareciam tão diferentes um do outro e tão hostis um em relação ao outro que era difícil imaginar que as duas regiões haviam uma vez pertencido ao mesmo país. Em 1852, no período anterior à Guerra Civil Americana (Antebellum), e momento em que o filme de Wyler é iniciado, encontramos um Sul — uma sociedade fechada — tomado por uma crescente atitude belicosa que foi a base para o crescimento de um secessionismo mais militante, e que inspirou as ameaças de separatismo em relação à União, se a segurança do sistema escravocrata o requeresse. O clima mais quente e a riqueza dos solos do terço mais baixo dos estados sulistas tornaram possível o cultivo de produtos mais adequados do que o tabaco e cereais à forma de exploração agrícola e ao uso pesado de mão de obra escrava. O crescimento da lavoura de algodão de fibra curta, bastante indicado para uma forma extensiva de produção, foi a maior e melhor forma de exploração agrícola da região, que fortaleceu a presença da escravatura e desse tipo de exploração na economia sulista. Como a escravatura e o algodão pareciam estar inextricavelmente ligados, parecia evidente para muitos sulistas que a sua instituição peculiar fosse a pedra básica da riqueza e do progresso econômico da nação. Considere-se que o cultivo do algodão e a rede de empresas comerciais e industriais que vendiam e processavam essa mercadoria constituíam o interesse econômico mais importante dos Estados Unidos nas vésperas da Guerra Civil.

À medida que o reino do algodão se deslocava para o Oeste, mais especificamente para o Alabama, o Mississippi e a Louisiana, os homens transformados nos mais ricos plantadores eram cada vez menos oriundos de classes nobres. Alguns dos mais ricos e mais seguros na vida aspiravam viver à maneira tradicional da aristocracia proprietária de terras. Jezebel, 1938“Grandes mansões”, carruagens elegantes, bailes com roupas esplendorosas e número excessivo de criados, tudo isso refletia aspirações aristocráticas. Os duelos, a despeito dos esforços para reprimi-los, ainda eram a maneira normal de acertar “as questões de honra” entre cavalheiros. Um outro sinal de nobreza era a tendência dos filhos dos fazendeiros de evitar o comércio como primeira ou segunda opções de vida, preferindo a advocacia ou a carreira militar. As filhas dos fazendeiros eram treinadas desde a infância a tocar piano, falar francês, vestir segundo a última moda, e brilhar nas recepções e nos salões de baile. O estilo aristocrático teve origem entre os antigos nobres dos estados escravocratas litorâneos, mas nas décadas de 1840 e 1850 já tinha se alastrado para o Sudoeste à medida que a segunda geração de fazendeiros ricos começou a substituir os rudes pioneiros do reino do algodão.

Para a cultura afro-americana, especialmente entre os escravos, a religião era a pedra fundamental. O cristianismo negro estava longe de ser apenas uma mera imitação da forma religiosa e das crenças dos brancos. Era antes uma variante distinta do protestantismo evangélico que incorporava elementos da religiosidade africana e acentuava aquelas partes da Bíblia que falavam das aspirações de um povo escravizado sedento de liberdade. Isto se pode ver bem nitidamente na música, como é o caso do Negro Spiritual. As canções religiosas falavam diretamente do padecimento de um povo em cativeiro e implicitamente afirmavam seu direito de ser livre.

Nova Orleans, maior cidade do estado da Louisiana, sintetizava muito bem tudo o que se tem descrito. Fundada originalmente por exploradores franceses, tornou-se conhecida pelo seu legado multicultural — especialmente influências culturais francesas, espanholas e afro-americanas, e pela sua música e por sua culinária. Jezebel, 1938Um centro portuário movimentado, graças à localização próxima ao Golfo do México e do Rio Mississippi, fez da cidade um polo de conexão para produtos importados e exportados. Desde os primórdios da história da cidade, uma característica era sua população cosmopolita, poliglota e multicultural. No início da década de 1840, Nova Orleans era então a quarta maior cidade do país. Tornou-se extremamente ativa culturalmente, com vários teatros, óperas e museus tendo sido inaugurados na cidade, operando dia e noite. Porém, o crescimento populacional da cidade era interrompido por vezes por epidemias de febre amarela. As autoridades da cidade, então, não sabiam que a causa destas epidemias eram os pântanos localizados próximos à cidade, que criavam um terreno propício para a criação dos mosquitos transmissores da doença. A maior destas epidemias ocorreu em 1853 e matou cerca de dez mil pessoas — esta epidemia é muito bem descrita neste filme de Wyler, e constitui-se um elemento importante no enredo. Como um centro portuário de grande porte, Nova Orleans possuiu um papel primário no comércio de escravos, enquanto que a cidade possuía, ao mesmo tempo, a maior comunidade afro-americana do Estados Unidos da América. Em 1861, a Louisiana separou-se dos Estados Unidos e juntou-se aos Estados Confederados. Ainda no mesmo ano, a Guerra Civil Americana teve início. Como um porto primário de grande importância para a Confederação, foi um alvo primário de ataques navais da marinha americana.

É neste contexto que Wyler monta o cenário do seu filme. Jezebel, 1938Os assuntos da ordem do dia são as plantations, as decisões do preço do algodão e as discussões acerca da industrialização versus o trabalho braçal, majoritariamente escravo. As diferenças ideológicas entre sulistas e ianques estão à flor da pele, e a questão abolicionista bastante inflamada. As tradições são cultivadas e os protocolos sociais rígidos, com as regras sociais já postas. A noção de honra é muito forte entre os cavalheiros locais, e, como geralmente acontece nas sociedades aristocráticas, a importância do chão (do lugar, da terra) é salientada. Um dos lados perversos se mostra no contexto da febre amarela, com o uso de métodos ignorantes ou primários para combatê-la, incluindo a segregação, quarentena em lugares desumanos e exílio como prevenção do contágio. A doença encontrava-se fortemente associada à lepra no imaginário popular.

Em tal contexto, como seria uma jovem entrar em um baile vestida de vermelho, onde todas as mulheres e moças, luxuosamente, vestem branco? Em Jezebel (1938) — título que faz referência a uma personagem bíblica, à rainha perversa, esposa do rei Acabe — Julie Marsden (Bette Davis), uma impetuosa jovem aristocrata, escandaliza a sociedade de Nova Orleans, sua família e até mesmo o seu noivo Preston ‘Pres’ Dillard (Henry Fonda) ao ir para o baile anual vestida de vermelho, contrariando a moda da época para as moças, que deveriam todas trajar um simbólico branco. Desafiado pela mimada e voluntariosa noiva, que desejava provocá-lo, Preston enfrenta o repúdio dos demais convidados e fica ao seu lado, mas se sente humilhado e, quando a noite acaba, ele abandona a noiva e a cidade e vai para Nova York. Julie se arrepende da provocação e, apesar de apaixonada, não procura o noivo, refugiando-se em sua fazenda. Refugiou-se também em um arquétipo feminino fortemente arraigado, e acreditava que o noivo iria voltar. Um ano depois Preston volta, quando a cidade enfrenta a grave crise de febre amarela (a yellow jack). Jezebel, 1938Julie, sem conseguir se controlar, veste um bonito vestido branco e recepciona o antigo amor em sua casa. Porém, os tempos agora eram outros, o que ela descobrirá amargamente em um trágico final.

Neste filme Bette Davis tem uma atuação particularmente marcante, e por meio dela Wyler capta muito do universo e sensibilidade feminina, e sintetiza com rara propriedade a trajetória nada feliz de algumas delas. O roteiro aponta para a dramática realidade dos acertos e reparações que acontecem fora do tempo. Não raramente dá-se o caso de que uma atitude e um pedido de perdão, geralmente necessários, podem vir depois da ocasião apropriada. Como diz o sábio, “há um tempo oportuno para todo propósito”. Não raramente a teimosia é um enorme desserviço, e apegar-se a um orgulho ou capricho é absolutamente um péssimo negócio.

A boa trilha sonora é assinada por Max Steiner, que recorreu ao repertório sulista com a marca do Negro Spiritual e também das marchas religiosas. O piano romântico de Chopin se faz presente, como é o caso de “Tristesse” (“Etude”, Opus 10, No. 3). A sequência do vestido vermelho foi baseada em um fato ocorrido em Hollywood, numa festa em que todas as mulheres apareceram trajadas de branco, exceto uma senhora. Na edição do Oscar de 1939 o filme de Wyler foi indicado em cinco categorias, vencendo em duas: Melhor Atriz (Bette Davis) e Melhor Atriz Coadjuvante (Fay Bainter). As demais indicações foram Melhor Filme, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora (Max Steiner).

(Obras consultadas: DIVINE, Robert A. et al. América: Passado e Presente. Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1992, 767p.; CRUNDEN, Robert M. Uma Breve História da Cultura Americana. Rio de Janeiro: Nórdica, 1994, 348p.)

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