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Filhos na Era do “Amor Líquido” – Zygmunt Bauman

Cornelis de Vos Self-portrait with his Wife, Susanna Cock, and Children, 1634, Cornelis de Vos

Cornelis de Vos Self-portrait with his Wife, Susanna Cock, and Children, 1634, Cornelis de Vos (Flemish Baroque Era Painter, ca.1584-1651), Oil on canvas, 185.5 x 221 cm, State Hermitage Museum, St Petersburg, Russia

Ter filhos significa avaliar o bem-estar de outro ser, mais fraco e dependente, em relação ao nosso próprio conforto. A autonomia de nossas preferências tende a ser comprometida, e continuamente: ano após ano, dia após dia. A pessoa pode tornar-se — horror dos horrores — “dependente”. Ter filhos pode significar a necessidade de diminuir as ambições pessoais, “sacrificar uma carreira”, como pessoas submetidas à avaliação de seu desempenho profissional olham de soslaio em busca de algum sinal de lealdade dividida. Mais dolorosamente, ter filhos significa aceitar essa dependência divisora da lealdade por um tempo indefinido, aceitando o compromisso amplo e irrevogável, sem uma cláusula adicional “até segunda ordem” — o tipo de obrigação que se choca com a essência da política de vida do líquido mundo moderno e que a maioria das pessoas evita, quase sempre com fervor, em outras manifestações de sua existência. Tomar consciência de tal compromisso pode ser uma experiência traumática. A depressão e as crises conjugais pós-parto parecem enfermidades específicas de nossa “modernidade líquida”, da mesma forma que a anorexia, a bulimia e incontáveis variedades de alergia.

(Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. Professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia. Entre os conceitos mais conhecidos do autor estão os de “Modernidade Líquida”, “Amor Líquido” e “Sociedade de Consumidores”. In: Amor Líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004, pp. 60-61)

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