Quando a Escritura se torna imagem; Olhares da Arte sobre a Bíblia
Quando um artista se propõe a representar um tema bíblico, ele não realiza apenas uma reprodução visual de um episódio narrado nas Escrituras. Toda representação artística envolve necessariamente interpretação. A obra torna-se, assim, não apenas uma imagem do texto bíblico, mas também uma leitura dele. O artista selecciona um momento da narrativa, decide a disposição das figuras, define gestos, expressões, luz e ambiente. Em cada uma dessas escolhas aparece algo da sua própria sensibilidade, da sua cultura e da sua compreensão da narrativa sagrada.
Por essa razão, a história da arte cristã apresenta uma grande diversidade de formas de retratar temas bíblicos. Ao observar essa tradição com algum distanciamento, é possível reconhecer pelo menos três tendências recorrentes: representações que procuram uma aproximação narrativa e histórica do texto bíblico; representações que situam o episódio bíblico no contexto cultural do próprio artista; e representações que utilizam linguagem simbólica ou alegórica para expressar significados espirituais mais amplos.
A primeira dessas formas pode ser descrita como representação narrativa com intenção histórica. Nela, o artista procura contar visualmente a história bíblica, buscando certa verosimilhança narrativa e emocional. Um exemplo célebre encontra-se nos frescos da Capela Scrovegni, em Pádua, pintados por Giotto di Bondone (c. 1267—1337) no início do século XIV. Entre essas pinturas destaca-se a cena conhecida como Lamentação sobre Cristo morto. A composição apresenta o corpo de Cristo após a crucificação, cercado por Maria, pelos discípulos e pelas mulheres que o seguiram. Os gestos são intensos, os rostos expressam dor e os anjos no céu inclinam-se em desespero. Giotto não tenta reconstruir arqueologicamente o Israel do primeiro século, mas procura narrar o acontecimento de forma clara, dramática e humanamente compreensível. A pintura torna-se quase uma proposta visual de catequese: ela conta a história e convida o observador a entrar emocionalmente na narrativa. James Tissot (1836–1902), especialmente na série A Vida de Nosso Senhor Jesus Cristo (La Vie de Notre Seigneur Jésus-Christ, c. 1886–1896), segue esse mesmo conceito.
A segunda forma de representação ocorre quando o artista traz o episódio bíblico para o seu próprio tempo. Esta forma foi muito proeminente durante os períodos renascentista e barroco. Em vez de reconstruir o mundo antigo, o artista situa a narrativa dentro do universo cultural que lhe é familiar. Um exemplo extraordinariamente conhecido desse procedimento encontra-se na pintura O retorno do filho pródigo, de Rembrandt van Rijn (1606–1669), realizada por volta de 1669. A cena representa o momento de retorno do pródigo na parábola narrada em Lucas 15. O filho arrependido ajoelha-se diante do pai, vestido com roupas gastas e rasgadas, enquanto o pai se inclina sobre ele e repousa as mãos sobre os seus ombros num gesto silencioso de acolhimento. A luz concentra-se nesse encontro, deixando as demais figuras parcialmente na sombra. As roupas e o ambiente evocam o mundo holandês do século XVII, não o Israel do primeiro século. Contudo, o propósito de Rembrandt não é histórico, mas espiritual: ele procura tornar visível o drama humano do arrependimento e a profundidade do perdão. A parábola bíblica é assim transportada para o universo existencial do observador. A conhecidíssima A Última Ceia (1495-1498), de Leonardo da Vinci, expressa esse mesmo conceito. O mesmo se pode dizer de Caravaggio na pintura O Chamado de São Mateus (The Calling of Saint Matthew, 1599–1600).
Há ainda uma terceira forma de representação, na qual o artista utiliza a narrativa bíblica como linguagem simbólica ou poética para expressar significados teológicos ou históricos mais amplos. Um exemplo marcante dessa abordagem encontra-se na pintura Crucificação Branca (White Crucifixion), realizada em 1938 por Marc Chagall (1887—1985). Nessa obra, Cristo aparece crucificado vestindo um tallit, o manto de oração judaico. Ao redor da cruz multiplicam-se cenas de perseguição: aldeias incendiadas, refugiados fugindo, sinagogas profanadas. Chagall pintou essa obra no contexto das perseguições antissemitas que antecederam a Segunda Guerra Mundial. A crucificação torna-se, assim, um símbolo do sofrimento do povo judeu e da tragédia humana daquele tempo. A pintura não pretende representar o Calvário histórico; ela utiliza o acontecimento central da fé cristã como uma linguagem visual capaz de interpretar o sofrimento contemporâneo. Um outro exemplo marcante desta terceira abordagem encontra-se na obra Cristo de São João da Cruz (Christ of Saint John of the Cross, 1951), de Salvador Dalí.
Essas três abordagens — narrativa, contextual e simbólica — revelam algo fundamental sobre a arte que se ocupa de temas bíblicos. O artista não é apenas um executor técnico encarregado de ilustrar um texto. A arte envolve imaginação, sensibilidade e visão de mundo. Como observa Michael Horton (leia aqui), o artista possui uma capacidade particular de expressar aquilo que muitas vezes ultrapassa a linguagem puramente descritiva. Por meio da forma, da cor, da luz e da composição, a arte pode tornar visível o drama, a esperança, a beleza ou o mistério presentes nas narrativas bíblicas.
Diante disso, torna-se importante distinguir entre a autoridade do texto bíblico e a liberdade interpretativa da arte. Pastores e docentes de teologia devem estar especialmente atentos a este aspecto. A obra de arte não possui a mesma autoridade normativa das Escrituras. Ela não substitui o texto nem define o seu significado. Contudo, pode funcionar como meio de contemplação, memória e interpretação, permitindo que a narrativa bíblica seja percebida sob novas formas visuais e simbólicas.
A história da arte cristã mostra que cada época contemplou as Escrituras através da sua própria linguagem estética. Os frescos narrativos de Giotto, o drama humano iluminado de Rembrandt e o simbolismo poético de Chagall são testemunhos de épocas distintas que olharam para as mesmas narrativas sagradas e encontraram nelas significados que dialogavam com as suas próprias circunstâncias históricas.
Assim, ao observar uma obra de arte que retrata um tema bíblico, não vemos apenas uma imagem do passado. Vemos também o encontro entre Escritura, cultura e imaginação criativa. A obra torna-se simultaneamente memória da narrativa bíblica e testemunho histórico da forma como diferentes gerações compreenderam, imaginaram e contemplaram essa narrativa ao longo do tempo.
Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos.