Skip to content
Anúncios

A patologização do “aluno-problema” – J. G. Aquino

The village school in 1848 (Die Dorfschule von 1848), 1896, Albert Anker

The village school in 1848 (Die Dorfschule von 1848), 1896, Albert Anker (Swiss Painter, 1831-1910), 104 x175,5 cm, Kunstmuseum, Bern, Switzerland

Deu-se que certa vez, numa escola qualquer, transcorria uma aula normalmente. Após a professora ter atingido sua explanação do ponto previsto para aquele dia, um dos alunos a interrompe: “Professora, eu não entendi”. A professora explica o ponto de novo. O aluno reafirma: “Não entendi!” A professora, preocupada com o cumprimento do programa, explica pela derradeira vez. O aluno retruca ao final: “Eu não disse que não ouvi, eu disse que não entendi”.

Qual desfecho poderíamos suspeitar para essa espécie de quase-ficção pedagógico-escolar? Quais repercussões institucionais esse evento traria? E quais efeitos de subjetividade se produziriam em nossas personagens?

Uma primeira hipótese seria a professora tomar a fala de seu aluno como uma afronta, e, para assegurar o respeito da classe, adverti-lo na frente dos outros. Exasperada, passaria então para a outra parte da aula. No caminho de casa, já tranquila, pensaria: “distúrbio de comportamento”. Se acontecesse novamente, nas semanas seguintes, o caso seria levado às autoridades escolares para que fossem tomadas as devidas providências disciplinares — tudo em prol de sua tranquilidade e dos demais. Ao final de tudo, pensaria: “alguém tem que dar um jeito nesse menino”.

Outra possibilidade seria tomar a fala de seu aluno como indício de um déficit cognitivo, uma defasagem psicopedagógica. Conscienciosa, repetiria, em vão, sua explicação quantas vezes pudesse suportar. No caminho de casa, certeira, pensaria: “distúrbio de aprendizagem”. Nas semanas seguintes, confrontada com os limites de sua função, encaminharia o menino para um especialista — psicólogo, psicopedagogo ou médico — dependendo de sua intuição. De posse da avaliação técnica do especialista e de uma espécie de compaixão dela decorrente, isolaria-o dos demais, trazendo-o para mais perto de seus cuidados, ou, se possível, em uma classe específica destinada aos mais lentos. Ao final de tudo, pensaria: “alguém tem que tratar desse menino”.

Ainda uma terceira hipótese plausível seria a de, preocupada com o ambiente extra-escolar dessa criança, a professora investir um pouco de seu tempo investigando sua procedência, seu background familiar e social, a qualidade, de véspera, quase sempre precária das relações aí estabelecidas. No caminho de casa, piedosa, pensaria: “distúrbio de ajustamento”. Confrontada mais uma vez com os limites de sua função, trocaria comentários ao mesmo tempo indignados e benevolentes com os colegas sobre a calamitosa estruturação familiar dos alunos de hoje em dia. Ao final de tudo pensaria: “alguém tem que ajudar esse menino”.

(Extraído de AQUINO, J. G. “O mal-estar na escola contemporânea: erro e fracasso em questão”. In: AQUINO, J. G. Erro e fracasso na escola; Alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus Editora, 1997, pp. 91-92)

A história é um bom exemplo de práticas institucionais que produzem um determinado sujeito — o sujeito–problema. A patologização do cotidiano escolar se deve muito à transposição dos muros da escola pelos discursos da medicina e da psicologia, e à apropriação dessa produção teórica pelos protagonistas da escola. A história mostra, no interior das relações institucionais, um saber que se “naturalizou”, em razão da sua repetição contínua, e que tem contado com o consentimento de atores sociais — ignorando-se o caráter não-natural, e sim histórico, de tal realidade.

Anúncios