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Um cristão pode evitar a Teologia, a Filosofia, a Psicologia e a Pedagogia? (II)

Jesus with the Doctors (Jesus Questioning The Doctors / Jesus entre os Doutores), 1866, Antoine-Valérie Bertrand, after Gustave Doré

Jesus with the Doctors (Jesus Questioning The Doctors / Jesus entre os Doutores), 1866, Antoine-Valérie Bertrand (French Engraver and Illustrator, 1823-alive 1874), Wood Engraving, 24.5 x 19.7 cm (9.75 x 7.75 in.). After Gustave Doré (French Romantic Illustrator, 1832-1883). Original: La Sainte Bible, according to the Vulgate, translation by Jean Jacques Bourassé and Pierre Désiré Janvier, also called “La Grande Bible de Tours”, published in 1866 in a deluxe version illustrated (Mame in Tours, France; Cassell and Company, England, 1866). See The Doré Bible Gallery (Chicago: Belford-Clarke Co., 1891) by Project Gutenberg. Illustration to Luke 2.49. Large size here.

Num post anterior salientamos a importância de se entender adequadamente o princípio reformado de Sola Scriptura. Este pilar da Reforma Protestante, conquanto tenha sido desprezado ao longo dos séculos, já fora claramente defendido na história da igreja cristã. Como exemplo, no quarto século o capadócio Gregório de Nissa (335–398) o definiu de forma simples, em sua obra A Alma e a Ressurreição: “Fazemos das Escrituras o cânon e a regra de todo dogma; nós, por necessidade, contemplamos e recebemos apenas aquilo que possa se conformar com a intenção desses escritos.” Este lugar, como se conclui, é somente da Escritura.

No referido post, salientamos que Nuda Scriptura (“Escritura por si só” ou “Escritura Sozinha”) é uma distorção do conceito de suficiência das Escrituras, ao se crer que o lugar ideal para os crentes encontrarem autoridade e interpretarem a Escritura é fazê-lo em um sistema fechado, em um vácuo histórico e cultural, desconsiderando qualquer contexto ou tradição que possa influenciar e vincular o seu pensamento. Em geral, nessa posição tende-se a assumir conceitos já assimilados como “naturalmente dados”, a ponto de parecerem intuitivamente pressupostos ou puro senso comum. Desconsidera-se o contexto, bem como a historicidade do intérprete e a da cultura na qual ele se encontra inserido. Incide-se ainda no risco comum de não problematizar ou refletir suficientemente nas proposições assumidas. No fim das contas, pelo que concluo, este modelo fechado rejeita a interdisciplinaridade, o que faz da Teologia uma impossibilidade. A proposta Nuda Scriptura, querendo defender um biblicismo estrito, ao recusar-se ao exercício interdisciplinar também inviabiliza qualquer possibilidade para uma abordagem cristã em Filosofia, em Psicologia e em Pedagogia, e isto para dizer o mínimo. Na prática, a posição resulta contraditória e inviável, pois só se vive interdisciplinarmente. Afinal, vive-se na realidade, e a disciplina é apenas um recorte para a realidade.

Para interpretar a Escritura, eu precisarei de uma ciência da interpretação. Pensando nisto, apanhei a minha Bíblia. Possuo diversas versões do texto bíblico em minha biblioteca, inclusive em outros idiomas além do português, assim como nos idiomas originais. Porém, apanhei o texto que mais manuseio, a saber, a segunda edição da tradução Almeida Revista e Atualizada publicada em nosso país pela Sociedade Bíblica do Brasil. Trata-se da versão que nosso presbitério local utiliza nas leituras públicas nos cultos e também como texto padrão para as pregações e ensinos em nossa congregação. Abri-a e comecei a ler o texto. Dediquei-me a atentar para as palavras, pois tenho como confissão de fé a inspiração verbal e plenária dos autógrafos. Logo comecei a me dar conta de que teria que, necessariamente, defrontar-me também com ideias não vertidas em vocábulos específicos no texto bíblico.

Ao pensar na exigência de uma ciência da interpretação, avanço então para a reconhecida necessidade de pensamento formal, o qual me empresta a Filosofia, e não encontro a palavra “metafísica” nesta minha tradução. De fato, nem encontro o vocábulo “ideia”, no sentido do termo no idealismo racionalista; duas vezes encontro a palavra em minha tradução: uma no livro de Jó e a outra em Atos dos Apóstolos. Porém, em ambos os casos, remete-se para o sentido, mais comum ao texto bíblico, de entendimento e discernimento. “Conceituar” e “conceituação” também não encontro, e ao me deparar com “conceito” o identifico no sentido de declaração ou estima. Quando penso no Ser, objeto da ontologia, não encontro o verbo “definir” ou o substantivo “definição”. Quando penso na matéria prima de minha simbolização, não encontro “substantivo”, “substantivar” e “substantivamente” (encontro “substância”) e nem “adjetivo”, “adjetivar” e “adjetivamente”. Penso então no meu pensamento, e não encontro “raciocínio” e nem o verbo correlato. E, no texto vertido para o vernáculo, nada de “lógica”, “logicidade” ou “logicamente”. Como dualizo entre “clássico” e “moderno”, verifico que também não encontro estes substantivos. Ao dimensionar meu pensamento, não encontro “proposição” (encontro o verbo “propor”), nem “correlação”, “correlacionar” e “correlato”, e igualmente não encontro “ilustração” e nem o verbo “ilustrar”, encontrando o adjetivo “ilustre” como a ideia mais próxima. Pensando na construção de um argumento, não encontro “dedutivo” ou “deduzir”, e nem “indutivo”, conquanto me depare com o verbo “induzir”. Nada de “intrínseco” ou “extrínseco” ou de “implícito” e “implicitude”. As ideias de “explícito” ou “explicitude” me chegam apenas pelo advérbio “explicitamente”. Ao caminhar para o contexto dos meus deveres e responsabilidades, não encontro “moral” e “moralidade”, e nem mesmo “ética”, “ético” e “eticidade”. E assim, a minha “filosofia de cada dia” precisará dialogar com o texto bíblico por ideias ou conceitos não exatamente abrigados pelos referidos vocábulos, os quais moldam a minha forma de pensar e oferecem material à minha pessoa.

Percebo, a seguir, que o conceito que tenho de ciência me foi legado pela modernidade. Quando encontro a palavra “ciência” na Bíblia, concluo que ela não possui aquela especificidade semântica. Não encontro aqui “cientista” ou “científico”. Não encontro a palavra “natureza”, no sentido moderno de conjunto das coisas criadas; a que encontro é a palavra “criação”. Também não encontro os substantivos “naturalista” e “naturalidade”. Pensando no ato de fazer ciência, não encontro as palavras “observação” e “observador”. Deparo-me com o verbo “observar”, porém apenas no sentido de realizar ou cumprir. Não encontro, nesta tradução bíblica para o português, o substantivo “pesquisa”, o verbo “pesquisar” e o vocábulo “pesquisador”. Penso, então, na forma como se faz ciência. Porém, não encontro o conjunto que reúne as palavras “método”, “metodologia” e “metodológico”; nem “estratégia”, “estratégico” e “estrategicamente”. Quando penso em levantamento de dados, não encontro “dados” no sentido de achados científicos. Não encontro ainda as palavras do grupo “seleção”, “selecionar”, “seletivo” e “seleto”. O substantivo “descrição” não encontrei, e o verbo “descrever” conserva-se no sentido linear de relatar ou narrar. Não encontro, nesta tradução, o conjunto “crítica”, “criticar”, “criticidade” e “criticismo”. Também nada dos vocábulos “teoria”, “teórico”, “teorizar”, etc. “Classificação” não encontro, embora me deparo com “classificar” uma única vez no sentido de considerar. Nada de “código”, “codificar” e “codificação”. Por fim, claro, não encontro a palavra “paradigma”, tão cara a alguns dos atuais filósofos da ciência. A Bíblia não terá nada a dizer sobre as ideias abrigadas por esses vocábulos específicos? Sim, ela tem, com toda certeza. Em alguns casos, talvez possamos até nos valer de sinonímia. Mas como saber se não a colocarmos em diálogo, crítica ou juízo aos mesmos? E como medir tais ideias se assim não procedermos?

Percebo-me ser humano, e então me deparo com as chamadas “ciências humanas”. Como tenho uma confissão cristã, entendo-me como um ser criado. E, ao pretender abordar a pessoa humana, reconhecidamente complexa, concluo que ela não pode escapar ao domínio de leis estabelecidas pelo Criador, e assim reconheço inevitavelmente a legitimidade de esforços científicos que pretendem estudá-la. Se vejo a pessoa humana como um fenômeno neste universo imanente, regulado por leis do governo soberano, então não posso excluí-la da formulação de juízos, julgando que estes só seriam possíveis estritamente nos domínios da revelação especial. Esta não seria a maneira cristã e bíblica do sábio fazer ciência. Reconheço, por outro lado, que no domínio da revelação bíblica, centralizada em Jesus Cristo, defronto-me com conceitos cruciais e superiores acerca da pessoa humana. Reconheço, entretanto, que estes conceitos não pretendem esgotar ou exaurir tudo quanto se pode conhecer da pessoa humana; pretendem-se verdadeiros e normativos.

Abordando a pessoa humana, não a contemplo fora do corpo. Não encontro aqui nesta minha tradução bíblica para o português, entretanto, “organismo” e “orgânico”, e nem mesmo o substantivo “organização” e o verbo “organizar”. Também não encontro “fisiologia”, “fisiológico” e nem mesmo “fisionomia”. Não encontrarei “biologia” e “biológico” (embora as duas palavras que as originam abundem nos originais gregos), tampouco “gene” e “genética”. Claro, também não encontrarei “célula” e “molécula”. Quando encontro “medicina”, três vezes no livro de Provérbios, esta possui o sentido específico de cura ou saúde, e não pretende nominar uma área da ciência nos termos modernos. Logo, não encontrarei assim a palavra “medicamento”. Não encontro o vocábulo “nervoso”, e a única vez em que se fala de “nervo” é para referir-se àquele no quadril de Jacó. Nem “neurônio” – e o que dizer de “neurotransmissores”? Também não se encontrará “cérebro” e “hormônio”; “cirurgia”, “cirúrgico” e “cirurgião”; “vírus” e “bactéria”; “hereditariedade” e “hereditário”. Se meu pensamento se encaminhar também para dimensões psíquicas, não encontrarei, no meu texto traduzido, “psiquiatria”, “homeostase”, “transtorno”… Também não encontrarei “humor”, “humoral” e “humorado”, assim como “trauma”, “traumático”, “traumatismo” e “traumatizado”. Nada de “psicopatologia”, embora as três palavras que lhe originam sejam abundantes nos originais gregos. Não acharei “neurose”, “psicose”, “psicopata”, “esquizofrenia”, “depressão” (nem mesmo para referir-se ao relevo); também não encontrarei “melancolia”, termo encampado pela poimênica puritana e clássica em geral. No Novo Testamento, recorre-se aos atos de “delirar” e “alucinar”, algumas poucas vezes, para traduzir vocábulos gregos. Não tenho aqui, na tradução bíblica, “dissociar”, “dissociação” e “dissociado”; “compulsão”; “amnésia”. Não encontrarei palavras comuns em nossa cultura, como “terapia”, “psicologia”, “psicoterapia”, “psíquico”, “psiquismo”, “psicossomático” e “psicoativo”, embora todas de origem grega, com etimologias que envolvem vocábulos comuns aos originais bíblicos.

Se penso nos esforços dos psicólogos experimentais, não encontro “escala”, no sentido de estabelecer uma medida ou permitir um escore. Quando encontro “grau”, é apenas para a medida de luz e sombra. Não encontro “reação”, embora por duas vezes deparo-me com o verbo “reagir” no sentido de voltar, retornar ou responder. Não encontro “teste”, “testar” e “testagem”; nem “inventário” e “inventariar”; nem “processamento”, “processar” e “processo” (que só encontro como peça de julgamento). Não encontro “protótipo”, “prototipia” e “prototípico”. Quando penso no acervo da “psicologia nossa de cada dia”, evocado em todo tempo, por todo canto e por todo tipo de pessoa, também percebo que não encontro aqui nesta minha tradução alguns termos comuns: “abordagem” e “abordar”; “personalidade” e “interpessoalidade” (encontro o termo “pessoa” em acepção ampla); “temperamento”; “genioso”; “desajustado”; “complexo”; “recalque”; “frustração”; “repressão”; “desabafar”, “desabafo”; “entusiasmo”; “hábito”, “habitual” e “habitualmente”; “identidade”, “identificar”, “identificação” e “idêntico”; “sensibilidade”, “sensibilizar”, “sensibilização” e “dessensibilização”; “emoção”, “emoções”, “emocional” e “emocionalidade”; “sensação”, “sensorial” e “sensorialidade”; “agressão”, “agressivo” e “agressividade” (encontro rarissimamente o verbo “agredir” em sentido estrito de ferir fisicamente); “intuição” e “intuir”; “pressentimento”; “atração” e “atraente” (com o verbo “atrair” para traduzir diferentes ações); “simbolizar” e “simbolização” – aparece o substantivo “símbolo” geralmente ancorado em alguma realidade concreta; “estresse”, “estressar”, “estressado” e “desestressar”; “conflito” encontro apenas uma vez em contexto de guerra, em sentido bélico… Não encontro, ademais, “criatividade” e “criativo”; “hiperatividade”; “altruísmo” e “altruísta”; etc.

Se penso no acervo dos psicólogos behavioristas, só encontro “comportamento” uma vez, denotando modo ou estilo de vida. Só encontro “estímulo” três vezes, as quais remetem para três diferentes ações do idioma original: provocar, persuadir e incitar. Não encontro “ambiente”, “ambiental” e “ambiência”. Quando encontro a ação de “reforço”, tem o sentido básico de aumentar a estrutura física. Não encontro “condicionamento”, “condicionar” e “condicionado”; nem “treino”, “treinar” e “treinamento”. “Modelagem” (um processo dirigido) também não encontro, embora me depare com o substantivo “modelo”. Igualmente, “assertividade” e “iniciativa”. Nem “funcionar”, “funcional”, “funcionalidade” e “funcionalismo” – encontro “função” uma única vez. De igual maneira, nem “contexto”, “contextual”, “contextualizado”, “contextualmente”… Se penso na abordagem dos psicanalistas, não encontro, por exemplo, “inconsciente”, “inconsciência” ou “consciência” (esta última somente encontro no sentido de consciência moral); nem “associação”, que só encontro no sentido de unir-se ou fazer-se parte de algo. Também não encontro “sexualidade”, “sexual”, “sexualizado” e nem mesmo “sexo”, o qual só encontro no sentido de gênero: “sexo” masculino e “sexo” feminino. Em rigor, não encontro nem “romance”, “romântico”, “romanciar” e “romantismo”. Se penso nos gestálticos, só encontro “percepção” uma única vez, e com a acepção de discernimento moral; também não encontro “perspectiva”. E, por razões óbvias, não deveríamos procurar por “insight”. Se me volto para os cognitivistas, não encontro “cognição”, “alternativa”, “distorção”, bem como “motivação” e “motivacional”. Se penso na abordagem psicológica da Fenomenologia Existencial, não encontro “fenômeno”, “fenomenológico” e “fenomenologia”, embora este conjunto de palavras tem etimologia em termos gregos comuns. Quando procuro pela ideia de “essência”, o mais próximo que encontro é o adjetivo “essencial”, por duas vezes, significando necessidade e a coisa mais importante. Não encontrarei “subjetivo”, “subjetividade” e “intersubjetividade”, e surpreendentemente, não encontro nem mesmo “sujeito” enquanto substantivo.

Sei da influência da psicologia social, inclusive nos rumos do pensamento acadêmico latino-americano, com suas interfaces com a sociologia e antropologia. Não encontro, nesta minha tradução para o português, o vocábulo “social”, e quando encontro “sociedade”, uma única vez, sei que se traduz em outras versões por participação ou comunhão. Não encontro “individualizado” e “individualização”, e quando encontro o sentido de “indivíduo” no advérbio “individualmente”, não estou tão seguro de que o original transmite o sentido radical de algo individido, que não se divide. Não encontro o substantivo “coletivo”, e “coletividade” é encontrada referindo-se a uma comunidade ou cultura local. Não encontro o verbo “interagir” e o substantivo “inter-relacionamento”. Não encontro a palavra “atitude”. Não encontro o vocábulo moderno “cultura”; encontro este vocábulo duas vezes, no livro do profeta Daniel, para referir-se ao acervo escrito. Não encontro “tendência” e “tendente”. Não encontro “estereótipo”, “estereotipar”, “esterotipado” e “estereotipia”. Não me deparo com “popular”, “popularidade” e “popularizado”. Não encontro o vocábulo “preconceito”. Não encontro “racismo”, “racial”, conquanto já conte com o substantivo “raça”. Não encontrarei “segregação”, “segregar” e “segregado”; nem “inclusão”, quer seja no sentido geral, quanto no sentido social específico da palavra. Também não me defronto com “sistema”, “sistematizar”, “sistemático” e “sistêmico”.

Sei que as psicologias do desenvolvimento servem de matrizes para as pedagogias. Porém, apenas como poucos exemplos, não encontro em minha versão bíblica o verbo “desenvolver” com o foco maturacional humano, bem como o substantivo “desenvolvimento”. Não encontro “adolescência”, “adolescente” e “adolescer”. Não encontro o vocábulo “maturidade”, embora a ideia de amadurecer seja imensamente presente. Pensando no conceitual pedagógico, não encontro o substantivo “aprendizagem”, assim como “estudante”, e até mesmo o verbo “estudar”, propriamente dito, é bem raro. “Professor” e “aluno”, que evocariam a imagem moderna, não são encontrados; temos as imagens clássicas de mestre e discípulo. Não encontramos “série”, “serial”, “seriado” e “seriação”. Igualmente, “colega”, “colégio”, “colegial”, “colegiado” e “coleguismo”. O verbo “orientar” e o substantivo “orientação” não foram utilizados nesta tradução; o que temos é a ideia básica de “oriente” e “oriental” no sentido geográfico. Não leremos ainda “esquema”, “esquemático” e “esquematização”. Também não encontraremos “estágio”, “estagiar” e “estagiário”.

E assim, depois destes poucos mas significativos exemplos, minha leitura do texto bíblico defrontou-se com um universo que me parece infinito. Minha leitura se fará necessariamente em processo multidisciplinar. E alguém poderia me indagar: “Apesar de não conter este acervo de vocábulos específicos, forjados ao longo da história pela dinâmica cultural e na evolução etimológica, a sabedoria bíblica não se ergue altaneiramente com uma riqueza inigualável?”. Ao que eu responderei, sem pestanejar: “Sim. Concordo inteiramente”. Ele pode avançar: “Sem a Bíblia, nós cristãos ficamos sem qualquer filtro ou referência de verdade”. Eu direi: “É assim que tenho crido”. Outro poderá adicionar: “O evangelho, que ocupa o coração da mensagem bíblica, não tem substituto, e faz toda a diferença para o ser humano”. Eu responderei: “Com certeza! Concordo inteiramente, tanto por preceito como por experiência prática”. Um outro poderá se interpor: “Não podemos inferir a inexistência de conteúdo bíblico simplesmente recorrendo a este ‘amontoado’ de palavras que não se encontram em nossas traduções bíblicas”. Ao que procurarei responder: “Com certeza, e este é, em essência, um dos meus pontos”. E indagarei: “Porém, como faremos para verificar isso, a menos que nos proponhamos a considerar a questão? Isto necessariamente nos encaminhará para um exercício interdisciplinar”.

Alguém poderia intervir: “Mas este modelo não compromete a regra áurea de que ‘a Escritura interpreta a própria Escritura’?” Talvez eu pudesse tentar um breve esclarecimento: “Não compromete. O fato de alguém interpretar a Escritura como um sistema internamente íntegro e coerente, pelas palavras, ideias e conceitos da própria Escritura, não significa que ele consiga realizar este exercício desconectado de seu contexto histórico-cultural. Além disso, o intérprete precisará confrontar a sua interpretação das Escrituras com os conceitos que moldam a vida ao redor.” Outro ainda poderia sugerir que, como nos diz Michael Polanyi, “sabemos mais do que somos capazes de expressar”, e que, portanto, “o conhecimento não pode se reduzir ao aparato verbal”. Eu digo que “tenho procurado refletir sobre isso, e que esbarrando em meus limites tenho procurado valorizar a arte, mas que aqui estamos considerando o conhecimento que foi expresso ou revelado verbalmente”. Por fim, um outro ainda poderia propor: “Não seria importante, então, verificar o que encontramos na Bíblia acerca das principais ideias e conceitos expressos em todo esse vocabulário de nossa cultura? Como a régua bíblica julga tais ideias, conceitos e valores tão presentes e influentes em nossas vidas atualmente?” Respondo: “Sim. Este é um excelente desafio!” Provavelmente ele dirá: “Mas essa seria uma tarefa gigante, e que provavelmente nunca chegará ao fim. Ademais, exigirá um conhecimento que se especialize. E também possui seus riscos inerentes.” Ao que, finalmente, responderei: “Concordo inteiramente”. E talvez eu possa ainda relembrar que quando o Criador expulsou o primeiro casal do jardim, e colocou querubins e uma espada flamejante à porta, com este ato Ele estava dizendo em termos bem simples, mas eloquentes: “Daqui para frente, pessoal, não haverá vida fácil!

Leia também: Um cristão pode evitar a Teologia, a Filosofia, a Psicologia e a Pedagogia? (I) e “Nuda Scriptura” e Suficiência das Escrituras

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