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Edwards e a Melancolia de Brainerd

Engraving. In: PAGE, Jesse. David Brainerd, the Apostle to the North American Indians. Scotland: John Ritchie, 1950(?), 160 pages. Cover detail.

Engraving. In: PAGE, Jesse. David Brainerd, the Apostle to the North American Indians. Scotland: John Ritchie, 1950(?), 160 pages. Cover detail.

Há uma coisa em Brainerd, facilmente discernível pelo relato seguinte de sua vida, que podemos chamar de uma imperfeição nele, que – embora não seja propriamente uma imperfeição de natureza moral – por muitos pode ser considerada uma objeção às evidências extraordinárias de sua religiosidade e devoção, a saber, que ele era, por sua própria constituição e temperamento natural, muito inclinado à melancolia e ao abatimento de espírito. Há alguns que pensam que toda religião seriamente estrita é algo melancólico, e que aquilo que se chama de experiência cristã é pouco mais do que melancolia, que perturba o cérebro e elicia imaginações entusiásticas.

Porém, ainda que o temperamento e a constituição de Brainerd o inclinassem ao desalento, não é justo supor que sua extraordinária devoção fosse apenas fruto de uma imaginação calorosa. A despeito de sua inclinação ao abatimento, é claro que ele era daqueles homens que, usualmente, vivem bem longe de uma imaginação fervilhante, sendo dotado de um gênio penetrante, de pensamento claro, de raciocínio lógico e de julgamento muito lúcido, como era patente para todos que o conheciam. Possuidor de grande discernimento da natureza humana, perscrutador e judicioso em geral, ele também sobressaía em discernimento e conhecimento teológico, e, sobretudo, na religião experimental.

Ele distinguia claramente entre a piedade real, sólida, e o mero entusiasmo; entre aquelas afeições que são racionais e bíblicas, alicerçadas sobre a luz e o bom juízo, e aquelas baseadas em presunções excêntricas, com impressões fortes na imaginação e em emoções veementes dos espíritos animalescos. Era extremamente sensível à exposição dos homens a estas impressões, a quão extensivamente elas tinham prevalecido, a quantas multidões tinham sido enganadas, às suas perniciosas consequências, e ao temível prejuízo que elas têm feito no mundo cristão. Brainerd não confiava nesse tipo de religião e tinha farto testemunho contra ele. Ele percebia de imediato quando coisas dessa natureza surgiam, ainda em seus estágios primários, disfarçadas da maneira mais plausível e aparentemente justa. Ele tinha um talento, como nunca vi igual, para descrever as várias operações dessa religião entusiástica e imaginária, desmascarando sua falsidade e vaidade e demonstrando a enorme diferença entre ela e a autêntica devoção espiritual.

Seu espírito judicioso não transparecia somente quando distinguia entre as experiências alheias, mas também entre os vários exercícios de sua própria mente, em particular ao discernir o quê, em seu próprio íntimo, devia ser lançado na conta da melancolia – no que ele excedeu a todas as pessoas melancólicas que conheci. Sem dúvida, isso era devido ao vigor peculiar de seu juízo, pois é deveras raro que pessoas, sob a influência da melancolia, mostrem-se sensíveis para com sua própria doença, e plenamente convictas de que tais e tais coisas devem ser atribuídas a ela, assim como de seus genuínos frutos e operações.

Brainerd não adquiriu esse grau de habilidade com rapidez, mas gradualmente, e isso o leitor poderá discernir através deste relato de sua vida. Nos estágios iniciais de sua carreira religiosa, ele atribuía muito desse tipo de escuridão da mente e tais pensamentos tenebrosos ao abandono espiritual, ao passo que na segunda metade de sua vida reconhecia que eram devidos à doença da melancolia – conforme frequentemente fez menção de modo claro em seu diário, atribuindo seus surtos de tristeza a essa causa. Em suas conversações, por muitas vezes referiu-se à diferença entre a melancolia e a tristeza piedosa, entre a verdadeira humilhação e o abandono espiritual, e também sobre o perigo de confundir uma coisa com a outra, e sobre a natureza mui prejudicial da melancolia. Discursava com grande discernimento sobre ela, sem dúvida, muito mais criteriosamente com base naquilo que conhecia por experiência própria.

(…) E quando a melancolia prevaleceu, e ainda que os seus efeitos eram muito prejudiciais para ele, ela não teve os efeitos do entusiasmo; mas operou por pensamentos sombrios e desencorajadores acerca de si mesmo, como sendo ignorante, ímpio, e totalmente inapto para a obra do ministério, ou mesmo para ser contado entre os seres humanos.

Uma outra imperfeição em Brainerd, que pode ser observada neste relato de sua vida, é que ele era excessivo em seus labores, não levando em conta a devida proporção entre a sua própria fadiga e as suas forças. (…) No entanto, finalmente deixou-se convencer de que estava errando quanto a esta questão e que deveria ter exercido maior cautela, mostrando-se mais resoluto a resistir à tentação para um grau de trabalho que lhe prejudicava a saúde (…).

Além das imperfeições mencionadas, pode-se admitir prontamente que havia algumas imperfeições que lhe marcaram pela vida toda, misturadas a seus afetos e exercícios religiosos, havendo alguma mistura do que era espiritual com o que era natural, tal como acontece com os melhores santos neste mundo. Sem dúvida, o temperamento natural tinha alguma influência nos exercícios religiosos de Brainerd, como visivelmente tinha em homens devotos como Davi e os apóstolos Pedro, João e Paulo. Houve, sem dúvida, muito frequentemente alguma influência de sua singular disposição para o abatimento, em seus quebrantamentos religiosos; uma mistura de melancolia com genuína tristeza piedosa e autêntica humildade cristã; alguma mistura do fogo natural da juventude com o seu zelo santo por Deus; e alguma influência de princípios naturais misturados com graça em vários outros aspectos, como sempre foi e sempre será com os santos enquanto eles estão neste lado do céu. Talvez ninguém se mostrasse mais sensível para com as imperfeições de Brainerd do que ele mesmo; ou talvez ninguém pudesse detectá-las melhor, distinguindo o que era natural daquilo que era espiritual. É fácil para o leitor cuidadoso observar que à medida que as graças amadureciam nele, os exercícios religiosos de seu coração tornavam-se mais e mais puros; e quanto mais ele vivia, mais perspicaz ele se tornava em seu juízo.

(Extraído do prefácio de Jonathan Edwards [1703-1758] em “The Life and Diary of David Brainerd”, publicado em 1749 sob o título original de “An Account of the Life of the Late Reverend Mr. David Brainerd”. Cf. texto em inglês aqui. A tradução da citação, revisada por Gilson Santos, baseia-se em EDWARDS, Jonathan. A Vida de David Brainerd. 1a. edição. São Paulo: Editora Fiel, 1993, pp. 6-8. O leitor deve observar que alguns poucos parágrafos do prefácio original não constam desta tradução publicada em português, incluindo um trecho que consta na citação acima. David Brainerd [1718-1747] foi um missionário anglo-americano que dedicou-se à evangelização de nativos norte-americanos. A biografia, que resultou de seu diário pessoal, tem sido inspiração para muitos missionários cristãos.)

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