O Coração do Falso Mestre: Quando o mar revela a sua verdade
A Epístola de Judas é breve, mas de perceptiva densidade. Em poucos versículos, o autor concentra advertências que atravessam os séculos e continuam a falar com clareza desconfortável à igreja contemporânea. Em Judas 1.12–13, a sucessão de sete metáforas não tem função meramente literária; trata-se de um diagnóstico pastoral severo, dirigido a comunidades que convivem com líderes religiosos cuja presença aparenta normalidade, mas cuja influência é corrosiva.
Entre essas imagens, para os nossos propósitos aqui, queremos destacar uma delas, devido à sua força moral e sua recorrência bíblica: “ondas bravias do mar, que espumam as suas próprias sujidades” (Judas 1.13). Aqui, Judas formula um princípio espiritual de grande alcance: o mal interior não permanece oculto; ele emerge, transborda e se manifesta. Não se trata de uma observação circunstancial, mas de uma convicção teológica profunda sobre a relação entre coração, palavra, conduta e impacto comunitário.
A Escritura é consistente ao afirmar que a vida exterior é governada pelo interior. Jesus declara com clareza incisiva: “A boca fala do que está cheio o coração” (Mateus 12.34, ARA). Não se trata apenas de linguagem, mas de orientação de vida. O que domina o interior acabará, inevitavelmente, por moldar atitudes, decisões e relações.
Provérbios formula o mesmo princípio em termos sapienciais: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Provérbios 4.23, ARA). Quando a fonte está contaminada, o fluxo também o estará. Judas, ao falar de “espuma”, descreve precisamente esse transbordamento visível de uma fonte interior não purificada.
O paralelo mais directo encontra-se no profeta Isaías: “Os perversos são como o mar agitado, que não se pode aquietar, cujas águas lançam de si lama e lodo” (Isaías 57.20, ARA). A inquietação moral interior manifesta-se exteriormente. O problema não é apenas o movimento, mas a incapacidade de aquietamento, de ordem, de paz.
O falso líder e a ilusão da contenção
Aplicado ao falso líder — falso pastor ou falso mestre —, esse princípio assume contornos pastorais graves. Judas não descreve hereges marginais ou opositores externos, mas homens que participam da vida comunitária, “banqueteando-se juntos sem qualquer recato” (Judas 1.12). O perigo reside precisamente no facto de parecerem integrados, funcionais, até respeitáveis.
Contudo, a Escritura afirma que não existe contenção espiritual duradoura sem governo do Espírito. Onde não há regeneração real ou submissão genuína a Deus, a coerência não se sustenta no tempo. A actividade pode ser intensa, o discurso pode ser eloquente, mas o interior acabará por se denunciar.
Jesus Cristo adverte: “Não há árvore boa que produza mau fruto; nem árvore má que produza bom fruto” (Lucas 6.43, ARA). O problema do falso mestre não é apenas um erro ocasional, mas uma estrutura interior incompatível com o fruto que se espera. Por isso Judas o descreve como árvore “em plena estação”, mas “desprovida” de fruto.
Um dos aspectos mais evidentes da metáfora das ondas é que a espuma não permanece confinada ao próprio mar. Ela suja a margem, contamina o ambiente, torna a água imprópria. O falso líder não manifesta o seu mal apenas em falhas privadas, mas em efeitos comunitários: confusão doutrinária, relativização ética, abuso espiritual, escândalos normalizados, perda de discernimento colectivo.
Tiago aborda esse mesmo princípio ao tratar da língua: “Acaso, pode a fonte jorrar do mesmo lugar o que é doce e o que é amargoso?” (Tiago 3.11, ARA). A incoerência persistente denuncia a falsidade da fonte. Onde a liderança espiritual, de forma padronizada, gera amargura, divisão e instabilidade, o problema não é acidental; é interior.
Pedro descreve os falsos mestres como aqueles que “proferindo arrogantes palavras de vaidade” seduzem outros (2 Pedro 2.18, ARA). A vaidade interior transforma-se em discurso público, e o discurso em instrumento de destruição.
Discernimento pastoral e sobriedade espiritual
Judas vai além do diagnóstico moral. Ele afirma que a manifestação presente do mal antecipa um destino escatológico: “para os quais tem sido guardada a negridão das trevas, para sempre” (Judas 1.13). Antes do juízo final, há uma exposição histórica. Deus permite que o interior venha à tona, não apenas como punição, mas como advertência à igreja.
Nesse sentido, a revelação do mal é, paradoxalmente, um acto de misericórdia. Misericórdia para com o rebanho, que passa a ver com clareza; juízo para com o falso líder, cuja incoerência já não pode ser ocultada. Jesus afirmou: “Nada há encoberto que não venha a ser revelado” (Lucas 12.2, ARA). Neste foco específico, o tempo geralmente é um aliado da verdade.
O ensino de Judas chama a igreja a um discernimento que não é paranoico, mas sóbrio. Não se trata de caçar falhas freneticamente, mas de observar padrões, frutos, efeitos duradouros. A liderança espiritual não é avaliada primariamente por carisma, visibilidade ou sucesso, mas pela coerência prolongada entre interior, palavra e vida.
Paulo adverte: “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Tessalonicenses 5.21, ARA). O apóstolo instrui os cristãos a testar e avaliar cuidadosamente (julgando) tudo o que ouvem e vivenciam, retendo o que é bom e verdadeiro, e a rejeitarem o mal, especialmente em relação a ensinamentos e profecias. Esse exame inclui necessariamente a liderança. Onde há “espuma” recorrente — desordem moral, agressividade espiritual, instabilidade relacional —, há um coração não governado por Deus.
Conclusão: quando o mar revela a sua verdade
A metáfora de Judas permanece actual porque descreve uma realidade humana e espiritual permanente. O interior governa o exterior. O que não é tratado diante de Deus acabará por se manifestar diante dos homens. O falso mestre não é desmascarado apenas por erro doutrinário explícito, mas pelo transbordamento contínuo de um interior desordenado.
Para a igreja, a advertência é clara: vigilância sem cinismo, discernimento sem medo, fidelidade sem ingenuidade. Para os líderes, o apelo é ainda mais sério: cuidar do coração antes de cuidar do púlpito; submeter-se a Deus antes de falar em Seu nome. Pois, como ensina Judas, quando o mar interior não conhece a paz de Deus, ele inevitavelmente espuma — e a espuma revela o que estava oculto. As “ondas bravias” espumam as suas “próprias sujidades”.
Gilson Santos é ministro batista por quase quarenta anos. É pastor e presidente da Igreja Batista da Graça em São José dos Campos (SP), onde serve desde 1999. Graduado em História, Teologia e Psicologia, com pós-graduações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Atua como escritor e professor no Brasil e Portugal, e também dirige o Instituto Poimênica. Casado com Nadir, pai de duas filhas e avô de dois netos. Texto finalizado na variante europeia do idioma português.