Para Nos Achegarmos a Deus
Génesis 4.1–8
A narrativa de Caim e Abel abre diante de nós um cenário decisivo: dois homens postos à porta das duas cidades que atravessam toda a história humana — a cidade dos homens e a cidade de Deus, como diria Agostinho quando refletiu sobre a queda de Roma. Desde o início, o texto de Génesis revela dois paradigmas espirituais: dois modos de se relacionar com Deus, duas formas de culto, duas respostas humanas à revelação divina.
Caim e Abel nas Escrituras
A figura de Caim é evocada nas Escrituras como símbolo de uma religiosidade sem fé e de uma adoração sem arrependimento. Hebreus 11.4 afirma que “pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim”, e que, por meio dessa fé, obteve o testemunho de ser justo. João, na sua primeira carta, acrescenta que “Caim era do Maligno e assassinou o seu irmão… porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1João 3.12). Judas, por sua vez, fala dos que “prosseguiram pelo caminho de Caim”, entregues à ganância e à corrupção (Judas 11). Caim, assim, torna-se figura do culto rejeitado: o culto de quem se aproxima de Deus com mãos impuras e coração endurecido.
Já Abel, em contraste, é recordado como o primeiro justo, o primeiro mártir da fé. Jesus menciona o seu nome ao condenar a geração que rejeitou os profetas: “Para que sobre vós recaia todo o sangue justo, desde o sangue de Abel até ao sangue de Zacarias” (Mateus 23.35). A carta aos Hebreus o apresenta como aquele cuja fé ainda fala, e cujo sacrifício é superado apenas pelo sangue de Cristo, “que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel” (Hebreus 12.24). Abel é, pois, o paradigma do adorador que se aproxima de Deus com fé viva, mediante o sacrifício e pela graça.
Como nos achegar a Deus
A questão central emerge: como podemos achegar-nos a Deus, estando separados d’Ele e debaixo da Sua justa ira? Depois da queda, Adão e Eva são expulsos do Éden (Génesis 3.22–24). O caminho de volta só se abre pela graça. Os filhos de Adão, Caim e Abel, aproximam-se de Deus trazendo cada qual a sua oferta. Ambos prestam culto; contudo, apenas um é aceito. “Agradou-se Deus de Abel e de sua oferta, ao passo que de Caim e de sua oferta, não se agradou” (Génesis 4.4–5).
O texto revela que a aceitação diante de Deus não depende do gesto externo, mas da disposição interior e da mediação da graça. Todos pecaram e carecem da glória de Deus (Romanos 3.23). Logo, ninguém pode achegar-se ao Senhor senão por um caminho que Ele mesmo proveja.
1. É necessário que a graça nos alcance
A narrativa começa dizendo: “Aconteceu que, no fim de uns tempos…” (Génesis 4.3). Há uma história anterior à oferta — a história da graça que precede toda ação humana. Antes de Caim e Abel trazerem algo, Deus já se revelara. É a graça preveniente que torna possível qualquer aproximação. Sem essa iniciativa divina, o homem permaneceria afastado, incapaz de voltar-se para o Criador.
2. É necessário que haja fé
Hebreus 11 ensina que “sem fé é impossível agradar a Deus” (v.6). A fé é o único meio pelo qual o pecador se aproxima de Deus e é aceito. Abel ofereceu o seu sacrifício pela fé, confiando que Deus é galardoador dos que O buscam. Caim, pelo contrário, ofereceu sem fé, talvez confiando no mérito do seu trabalho ou no valor da sua oferta. A fé não é ornamento do culto — é o seu fundamento.
3. É necessário confiar na mediação e nos méritos do sacrifício
A diferença entre o cristianismo e toda religião humana reside nisto: não nos achegamos a Deus por nós mesmos, mas por meio de um Mediador. Abel, ao oferecer um cordeiro, reconhecia a necessidade de expiação; compreendia que o pecado só pode ser coberto pelo sangue. O seu sacrifício, portanto, apontava para Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. A fé de Abel já se firmava na promessa do sacrifício perfeito.
4. É necessário receber o testemunho de Deus de que somos justos
Abel foi considerado justo porque Deus lhe deu testemunho quanto às suas ofertas. Assim também a justificação é obra de Deus: Ele declara justo o pecador que confia no sacrifício do Mediador. A justiça que nos reconcilia com o Pai não nasce de nós, mas é imputada por graça, mediante a fé. Deus não ignora o pecado, não o varre para debaixo do tapete; antes, satisfaz a Sua própria justiça em Cristo, para poder acolher-nos como filhos. Como Abraão, Abel creu, e essa fé lhe foi imputada como justiça.
Implicações e Aplicações
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O nosso culto só é aceito porque está unido ao culto originário de Cristo.
No Antigo Testamento, Deus instituiu o sacerdote e o sacrifício. Na Nova Aliança, Cristo é ambos: o Sacerdote e o Sacrifício. Por isso, só podemos achegar-nos a Deus mediante o que Ele já realizou. Um culto sem Cristo é um culto idólatra. Hebreus 10.19–22 convida-nos: “Tendo intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus… aproximemo-nos com sincero coração, em plena certeza de fé.” Todo verdadeiro culto cristão participa deste caminho novo e vivo que Cristo abriu. -
As nossas ofertas não são sacrifício pelo pecado, nem moeda de troca com Deus, mas expressão de fé, amor e gratidão.
Em toda a Escritura, as ofertas pertencem ao culto, mas só são aceitáveis por causa de Cristo. Não ofertamos para aplacar a ira divina, mas porque já fomos reconciliados. Não ofertamos para merecer favor, mas porque já fomos favorecidos. Não damos para comprar a graça, mas porque a graça já nos alcançou. Ofertamos, enfim, porque confiamos no perdão que Deus nos concedeu mediante o sacrifício do Seu Filho.
Síntese conclusiva
A história de Caim e Abel é o primeiro espelho do coração humano diante de Deus. Um caminho conduz à rejeição — o caminho do orgulho, da autojustiça e da religião sem fé. O outro conduz à aceitação — o caminho da graça, da fé e do sacrifício que aponta para Cristo.
Aproximemo-nos, pois, de Deus com sincero coração, pela fé no Cordeiro. “Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; e, mesmo depois de morto, ainda fala” (Hebreus 11.4). A sua voz ecoa até hoje, chamando-nos a oferecer a Deus o culto que Ele mesmo tornou possível — o culto da graça.
Transcrição abreviada de sermão por pastor Gilson Santos, pregado à Igreja Batista da Graça em São José dos Campos, São Paulo. O sermão integrou uma longa série de mensagens com o título “Bons e Fiéis Despenseiros”. Texto compartilhado a leitores na variante linguística do português europeu.