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A Espada de Dâmocles

Sword of Damocles, detail, 1812, Richard Westall

Sword of Damocles, detail, 1812, Richard Westall (English Painter, 1765-1836), oil on canvas, 130.0 × 103.0 cm, Ackland Museum, Chapel Hill, North Carolina, USA

Siracusa foi fundada em 734 a.C. pelos colonizadores gregos de Corinto, tendo se tornado à época a maior cidade da Sicília. Hoje, entre as suas ruínas mais famosas estão um teatro e um templo gregos do século 5 a.C., muralhas e fortificações da cidade, aquedutos do período de Hierão III (478-467 a.C.), um anfiteatro romano e catacumbas. Seu passado foi marcado por guerras, invasões e tirania, como a de Dionísio, o Velho, que em 405 a.C. aproveitou-se da luta de seu país contra os cartagineses para apoderar-se do poder.

Para consolidar o poder, Dionísico adotou medidas como a construção de fortificações, a expulsão dos seus inimigos políticos, a evacuação dos soldados gregos de diversas cidades sicilianas e sua substituição por mercenários. Belicoso e cheio de ambição, Dionísio moveu diversas guerras contra os cartagineses e reinos vizinhos, até tornar-se o senhor da Itália Grega, em 386 a.C. Dois anos depois ele enviou uma delegação numerosa para participar dos jogos realizados em Olímpia, na Grécia, mas foi tão criticado por alguns oradores que a multidão se enfureceu e saqueou as tendas dos seus embaixadores. Seu reinado durou trinta e oito anos, e sua coroa foi transferida ao filho Dionísio, o Jovem. Siracusa era um lugar onde aquilo que o rei dizia deveria ser obedecido no ato. O totalitarismo do rei era absoluto.

The Sword of Damocles, Felix Auvray

The Sword of Damocles, Felix Auvray (French painter, 1800-1833), Oil on canvas, 260 x 190 cm (102,2 x 74,7 inches), Musee des Beaux-Arts, Valenciennes, France

Na corte de Dionísio, o Velho, vivia um grego chamado Dâmocles. Amigo do rei, ele desfrutava de regalias no palácio, mas apesar disso não conseguia evitar que os outros percebessem a inveja que sentia diante do que acreditava ser o desfrute de uma vida agradável, deleitosa e aparentemente despreocupada que o trono proporcionava a seu ocupante. Para corrigir essa impressão, Dionísio preparou-lhe um banquete e o colocou sentado em seu próprio trono, sobre o qual pendia do teto uma espada segura apenas por um fio da crina de seu cavalo. O episódio tem sido narrado assim:

Empossado, foram todos para a sala de comemorações onde seria servida a alimentação. Nada faltou ao bel-prazer de Dâmocles. Havia vinhos requintados, raros perfumes, lindas flores e música maravilhosa. Recostou-se em almofadas macias. Sentiu-se o homem mais feliz do mundo.

― Ah, isso é que é vida! ― confessou a Dionísio, que se encontrava na outra extremidade.

― Nunca me diverti tanto.

A bebida fora então servida. Dâmocles estava com o cálice cheio à mão. Ao levá-lo à boca, tendo de levantar sua cabeça para que o líquido pudesse descer por sua garganta, conseguia ver uma espada, enorme e pontiaguda, que mirava bem na sua testa. Só Dâmocles conseguia ver a espada, pela angulação em que estava. Ninguém mais na sala, e em que posição estivesse, conseguia vê-la. Ela estava presa por uma única e tênue crina da cauda de um cavalo, e podia soltar-se a qualquer momento.

Dâmocles enrijeceu-se todo. O sorriso fugiu-lhe dos lábios e o rosto empalideceu. Suas mãos estremeceram. Esqueceu-se da comida, do vinho, da música. Só quis saber de ir embora dali, para bem longe do palácio… Para onde quer que fosse… A lâmina brilhava, apontando diretamente para seus olhos. Tremendo, temia que um movimento brusco pudesse arrebentar aquele fiozinho tenro e fizesse com que a espada lhe caísse em cima. Ficou paralisado, preso ao assento.

Dionísio, que estava sentado à sua frente, ria-se! Ele, que sabia da existência da espada, também sabia que apenas Dâmocles era quem conseguia vê-la.

Com isso o invejoso súdito finalmente pôde entender que a manutenção do poder é algo tão precário que pode ser interrompida a qualquer momento, porque a força que o sustenta é tênue como a de um fio de cabelo. O invejoso cortesão compreendeu, em resumo, a precariedade do poder real. Na versão babilônica deste episódio, o Rei-deus Marduk diz ao seu súdito invejoso: “Para um Rei o primeiro erro grave será o último!”

Damocles, 1866, Thomas Couture

Damocles, 1866, Thomas Couture (French Academic Painter, 1815-1879), oil on canvas, 205 x 155cm, Musee des Beaux-Arts, Caen, France

O irônico Balzac disse que “é tão natural” destruir o que não se pode possuir, negar o que não se compreende, insultar o que se inveja! A expressão “a espada de Dâmocles” passou a simbolizar “um perigo iminente que paira sobre a vida de alguém”, e assume um sinal de alerta aos invejosos. Pois, em geral, na vida dá-se o mesmo. Quando se inveja o posto, ou o cargo… ou a vida de alguém, geralmente vê-se apenas a parte que se deseja ver. A Espada de Dâmocles é, assim, também uma espécie de alegoria, em que percebemos apenas a nossa dor e a relativa paz de outras pessoas.

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