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“A História é a majestosa Torre da Experiência” – H. W. Van Loon

Quando contava doze ou treze anos, um tio meu, que me ensinou a amar os livros e os quadros, prometeu levar-me em sua companhia a uma expedição memorável. Iria subir com ele ao cimo da torre do velho templo de S. Lourenço em Rotterdam.

Assim, num lindo dia, um sacristão munido duma “chave tão grande como as de S. Pedro” abriu-nos uma porta misteriosa, advertindo:

Quando quiserem sair, toquem a campainha.

E, com um grande ranger de velhos gonzos enferrujados, isolando-nos do burburinho da rua agitada, encerrou-nos num mundo de novos e singulares conhecimentos.

The Great Church of St. Lawrence, Rotterdam, 1881, detail, William Callow

The Great Church of St. Lawrence, Rotterdam, 1881, detail, William Callow (British Painter, 1812-1908), oil on canvas, Private Collection

Pela primeira vez na vida, eu me defrontava com o fenômeno do silêncio audível e, acabando de subir o primeiro lanço de escadas, podia acrescentar aos meus limitados conhecimentos dos fenômenos naturais mais uma noção: a escuridão tangível.

Um fósforo mostrou-nos a continuação do nosso caminho ascendente. Passamos do pavimento superior, depois a outro e outro, até que lhes perdi a conta; finalmente, vencida mais uma escada, encontramo-nos de súbito em plena luz. Esse andar ficava ao nível do telhado da igreja e era uma espécie de depósito de velharias. Cobertos de espessa camada de pó, jaziam ali os símbolos esquecidos duma crença venerável, abandonada havia muitos anos pela boa população da cidade. O que significara vida e morte para os nossos antepassados ali estava, reduzido a madeira e farrapos. Os ratos industriosos haviam cavado o seu ninho nas imagens esculpidas e uma aranha prudente se instalara nos braços dum “bondoso santo”.

No andar seguinte descobriríamos a origem de tanta luz. Enormes janelas escancaradas, guarnecidas de grossas barras de ferro, faziam dessa alta peça vazia o asilo de centenas de pombos. O vento soprava entre as barras, enchendo o ar duma melodia estranha e agradável. Abaixo de nós rumorejava a cidade; era, porém, um rumor depurado e suavizado pela distância. O rolar dos veículos pesados, o rangido das roldanas e guindastes, os silvos do vapor paciente, empregado de mil modos diversos para fazer as tarefas dos homens, fundiam-se num murmúrio brando e sussurrante que formava harmonioso acompanhamento ao trêmulo arrulho dos pombos.

Ali findavam os pavimentos da torre e continuavam as escadas. No fim da primeira (uma série de degraus velhos e resvaladiços que nos obrigavam a subir com cautela) se nos deparou outra e maior maravilha: o reino das horas. Era-me dado ver o coração do tempo, podia ouvir as pulsações pesadas dos rápidos segundos — um — dois — três — até sessenta. Então, com um subitâneo rangido, toda a engrenagem parecia estacar e mais um minuto se despenhava na eternidade. Imediatamente o tic-tac recomeçava — um — dois — três — até que afinal um rumor surdo de aviso, o ranger de muitas rodas e um som retumbante, muito acima de nós, anunciaram ao mundo o meio-dia.

No andar superior estavam os sinos, as delicadas sinetas e os seus corpulentos irmãos. Ocupava o centro o sino grande que me fazia encolher na cama, cheio de medo, quando, alta noite, dava o rebate de fogo ou de enchente. Na sua solitária grandeza, dir-se-ia absorto na meditação dos seiscentos anos durante os quais assinalara as alegrias e as penas do bom povo de Rotterdam.

Em torno dele, dispostos em ordem como os potes azuis duma botica antiquada, pendiam os seus pequenos companheiros; duas vezes por semana estes executavam um concerto festivo, para gozo dos camponeses que vinham ao mercado comprar e vender produtos e inteirar-se do que ocorria no vasto mundo. Num ângulo — sozinho e isolado dos demais — um grande sino negro, silencioso e severo: o sino dos dobres funerários.

Depois, mais uma vez as trevas, outras escadas mais íngremes e perigosas do que as precedentes e de improviso, o ar fresco do espaço livre. Atingíramos a galeria mais elevada. Acima de nós estava o céu, aos nossos pés a cidade — uma cidade em miniatura em que se azafamavam seres semelhantes a formigas, rastejando aqui e acolá, cada qual absorvido pelos seus afazeres pessoais; e, além desse labirinto de pedra, a extensão verdejante dos campos.

Foi o meu primeiro olhar ao vasto mundo.

Desde então, sempre que se me ofereceu oportunidade, fui ao cimo da torre e sempre encontrei nessa ascensão um vivo prazer. Era árdua tarefa, mas o resultado recompensava amplamente o esforço físico de subir algumas escadas.

Sabia de antemão qual seria a minha recompensa: veria os campos e o céu e ouviria as narrações de meu bom amigo, o guarda que, instalado numa pequena guarita, num ângulo resguardado da galeria, cuidava do relógio, era o pai dos sinos e dava os sinais de incêndio; porém, como lhe sobravam muitas horas livres, fumava cachimbo e remoía as suas pacíficas lembranças. Frequentara a escola quase meio século antes, mas vivera tantos anos no topo da sua torre, que chegara a absorver a sabedoria do mundo circunstante e a história se tornara para ele uma cousa viva.

  Ali — dizia, apontando uma curva do rio — está vendo ali aquelas árvores, meu rapaz? Pois foi nesse ponto que o príncipe de Orange abriu os diques, para inundar o país e salvar Leiden.

Church of St Lawrence, Rotterdam, Holland, detail, Engraved from a 19th century print

Church of St Lawrence, Rotterdam, Holland, detail, Engraved from a 19th century print

Outras vezes falava-me do velho Mosa, de como o largo rio deixara de ser um cômodo abrigo e se transformara numa insólita via de comunicação, sulcada pelos navios de De Ruyter e Tromp, na famosa e derradeira viagem durante a qual ambos haviam sacrificado a própria vida, a fim de que o mar se tornasse completamente livre.

Depois havia as povoações agrupadas em torno da igreja protetora que, noutro tempo, muitos anos antes, fora o lar dos seus santos patronos. Ao longe se erguia a torre inclinada de Delft. Sob as suas altas arcadas, Guilherme o Taciturno fora assassinado e Grotius aprendera a formular as suas primeiras sentenças latinas. Ainda além, avistávamos o vulto maciço da igreja de Gouda, primitiva morada do homem cuja inteligência se impôs mais do que os exércitos de muitos imperadores, do enjeitado que o mundo conheceu sob o nome de Erasmo.

Finalmente, à distância, desdobrava-se a linha prateada do mar infinito e como contraste, logo abaixo de nós, o labirinto de telhados e chaminés, de casas e de jardins, de hospitais, de escolas e de estradas de ferro a que chamamos a nossa pátria. Mas a torre mostrava-nos a velha terra natal sob uma nova luz. A confusa agitação das ruas e da praça do mercado, das fábricas e das oficinas assumia o aspecto duma metódica manifestação de energia e de intentos humanos. Mais do que tudo, a ampla visão do passado glorioso, que nos rodeava por todos os lados, insuflava-nos nova coragem para afrontar os problemas do futuro, quando voltássemos à nossa lida quotidiana.

A História é a majestosa Torre da Experiência que o tempo erigiu no espaço infindo dos anos decorridos. Não é fácil tarefa alcançar o cimo desse antigo edifício e gozar da vista dum panorama completo; não há ali elevador, mas os moços têm os pés fortes e podem tentar-lhe a ascensão…

Quando voltardes, compreendereis a razão do meu entusiasmo.

(“A Joãozinho e Guilherme”. Hendrick Willen Van Loon, 1882-1944, historiador e jornalista neerlandês. No prefácio de História da Humanidade. Trad. Marina Guaspari. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1944, pp. 5-9)

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